quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ayabá

Era do tempo em que ainda se tomava banho de cuia. Não era tão antiga assim, talvez fosse mais contemporânea do que todos nós juntos. Já era do tempo da água encanada, das torneiras, dos chuveiros, elétricos inclusive. Era humilde, por isso esse tempo. Não tão humilde assim. A família tinha uma condição estável. Isso também não acrescenta dado algum. Poderia ter uma condição miserável durante toda a vida e não deixaria de ter uma condição estável visto que ela permaneceu miserável por toda a vida. Não era isso também. Cresceu, subiu na vida, um pouco, é claro, mas cresceu, subiu, mas não era disso que estava falando. Tenho que começar descrevendo. Era simples, tinha uma condição simples, daí os banhos de cuia. Não era interiorana, não, pelo contrário, era da capital, filha de pais nascidos na capital. A família era simples, não pobre. Terminaram a casa, mas não toda. Os encanamentos, principalmente. Entenderam os banhos de cuia? Nunca reclamou da vida...até porque tomar banho de cuia devia ser algo muito insignificante para incomodá-la e fazê-la reclamar da vida. O restante da família, avós, tios, tias, primas, etc., era mais estável que a sua. Viviam, relativamente, bem. Eram realmente, ela e os pais, os mais simples da família. Ela, na verdade, nunca percebeu isso, sim porque se tivesse percebido teria se incomodado, como não se incomodou, não percebeu. Claro que teria se incomodado. Tinha todos os motivos do mundo para isso. A começar pela prima mais velha. Um dia mais velha. Por um dia lhe roubou o título e títulos era algo muito importante naquela família, principalmente os títulos que apresentavam algo inédito. O primeiro neto, o primeiro filho, o primeiro filho casado, a primeira palavra...Ela não era a primeira neta. Tiraram-lhe a oportunidade de ser o centro das atenções. Sim, mas por um dia? Sim, por um dia. Títulos são títulos. E naquela família então. A mãe poderia amar o filho com todas as suas forças, mas se a primeira palavra do filho fosse "papá" o amor acabava instantaneamente, óbvio. E isso era completamente compreensível, afinal a primeira palavra não fora "mamá". Em compensação a criança ganharia o amor incondicional do pai. Não sei até hoje no que isso pode ser vantagem, mas era assim. Como se não bastasse o furto do título de "primeira neta" fazendo-a perder toda a atenção dos avós, a prima mais velha, a mesma larapia, teve que ir morar na companhia dos velhos. Seus pais trabalhavam muito, formavam um casal de negócios, e bem sucedidos negócios, resultado: "Larissa (só o nome já causa náuseas) vai morar com os avós, é o jeito". Pronto. Agora não teria mais nada vindo da parte dos avós. Já não era a primeira neta e ainda por cima a tal primeira neta tornara-se a filha adotada pelos avós, ou melhor, a primeira filha adotada pelos avós. E foi assim a vida toda. As atenções dos avós eram somente para Larissa. Em toda boa família de bajuladores ninguém ousa ir de confronto com as idéias dos velhos, assim Larissa tinha toda a atenção dos tios e primos também. Mesmo assim ela nunca reclamara de nada, pelo contrário, adorava Larissa, que não merecia, é claro, afinal era uma ladra! Mas que nada! Ela nem prestava atenção nisso tudo. Acho que era o único ser livre de inveja no mundo. Ah...aqueles banhos de cuia...eles podiam fazê-la despertar, mas eram insignificantes demais para ela. Estava feliz assim mesmo. Ou acostumada. Sobre isso não sei precisar. O fato é que era simples, tinha hábitos simples, era fácil agradá-la. Divertimento? Aos montes. Tudo a divertia, desde ouvir os pais fazerem a lista do supermercado e ficar observando como os dois se completavam até ouvir o chamado dos pequenos e endiabrados vizinhos para pularem, dançarem e rodarem na rua ainda de terra. Mas seu grande prazer era mesmo o terreiro de Mãe Nicinha. Não era religiosa, pelo menos não tinha a definição disso na mente. Seu divertimento no terreiro era se sentir uma deusa. Também não tinha esse entendimento, mas eu tenho que usar essas expressões pra ilustrar como ela se sentia, ou pelo menos como ela se fazia ver. Uma deusa. Adorava usar os vestidões, as anáguas, as rendas, os cetins vermelhos, amarelos. Azuis não. Os brincos, as pulseiras, os badulaques, os turbantes. Os pés descalços! Ah, os pés descalços. Esse era seu maior prazer dentro do seu maior divertimento. Sentia-se livre, integrada, parte de alguma coisa que ela não sabia explicar o que era. Nem sentia isso também, mas se fazia ver assim. Rodopiava, cantarolava, levantava o pó do terreiro com sua grande saia abobadada. Era lindo. Supremo. Foi lá, no terreiro, que conheceu João Cabral. Foi lá, no terreiro, que virou moça. Foi lá, no terreiro, que se casou com João Cabral. Foi lá, no terreiro, que deu adeus a Mãe Nicinha e de lá, do terreiro, se despediu. Foi pra longe, viveu tudo que a vida deu direito a viver. Não. Ela não se tornou milionária, não conheceu o mundo, não teve tudo que todas as moças comuns sonham ter. Ela só viveu o que a sua vida deu direito. Cada um vive o que sua própria vida dá direito. Ela viveu a dela. E lindamente. De forma serena, tranqüila, materna. Foi feliz. Sim. Foi feliz. Até o dia em que resolveu fazer uma visita a uma amiga de longa data que estava de volta à capital, uma dessas que a chamavam ao portão para brincar. Em dado momento, depois de muitos abraços, beijos, conversa, atualizações, pediu licença e foi ao banheiro. Dentro do banheiro havia um balde e do lado uma cuia. Lembrou de tudo. O famoso filme que passa na mente da gente quando estamos perto de morrer, sabe qual é? Pois é, o dela se antecipou. Tudo passou ali, naquela hora. Havia sido feliz até aquele momento. Depois dali, depois de lembrar de tudo, não conseguia mais ser feliz, não conseguia mais ser só feliz. Ela tinha a obrigação de ser imensamente feliz. E o fez.

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