Tem gente que mesmo sem ser a pessoa mais especial da sua vida acaba se tornando muito importante, muito querida (no sentido mais real e puro dessa palavra) porque mesmo não fazendo parte do seu passado te remetem imediatamente a ele. É como se essas pessoas fossem tão agradáveis quanto as lembranças que te levam instantaneamente a uma sensação boa de antigamente. Elas são a presença boa, a companhia agradável, aquele conforto que a gente só sente com as lembranças sinestésicas como a chegadinha, o dindin de côco com nescau, o chiclete de tutti-fruti, a tapioca com manteiga, o cheiro de alfazema, o baião-de-dois quentinho, o carioquinha das 4 da tarde, o esconde-esconde com asfalto molhado, o suor da amiga que tá virando mocinha, a tarde no colégio, a tinta guache, a cola colorida, a massa de modelar, a caixa de linhas e agulhas, o papel de presente, o confete juntado do chão, o bolo confeitado, o refrigerante de uva, a sacolinha de bombom da lembrancinha do aniversário, a pipoca, a propaganda de TV da época da infância, a pasta colecionadora, o papel de carta, a coleção de chaveiro, o álbum de figurinha, o porta-retrato, os olhos vermelhos das fotografias, o geladinho das gotas grossas e pesadas do hidratante caindo nas costas depois de um dia de praia, o creme de cabelo, o álbum grande com as folhas que grudam as fotos cobertas por um plástico, a caneta de 12 cores, o estojo de latinha, o papel estêncil, o tecido de farda de colégio, o banho de chuva só ao redor do quarteirão...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Cantar
Canto para amenizar
Grande dor que me traz o sorriso de alguém.
Se a minha Portela querida
Cruzar a avenida eu canto também.
No canto vou jogando a minha vida pra você
Por isso fecho os olhos pra não ver.
Cantar, desnudar-se diante da vida.
Cantar é vestir-se com a voz que se tem,
Achar o tom da alegria perdida
E não ter que explicar pra ninguém, pra ninguém
A razão dessa tal melodia
Enxarcada de sorriso e pranto.
No cantar a lembrança se cria
E envelhece derepente
Vai solta no ar
Por isso eu canto.
Grande dor que me traz o sorriso de alguém.
Se a minha Portela querida
Cruzar a avenida eu canto também.
No canto vou jogando a minha vida pra você
Por isso fecho os olhos pra não ver.
Cantar, desnudar-se diante da vida.
Cantar é vestir-se com a voz que se tem,
Achar o tom da alegria perdida
E não ter que explicar pra ninguém, pra ninguém
A razão dessa tal melodia
Enxarcada de sorriso e pranto.
No cantar a lembrança se cria
E envelhece derepente
Vai solta no ar
Por isso eu canto.
Teresa Cristina
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Amarelo é a cor das mesas,
Dos bancos, dos cabos das peixeiras,
Da enxada e da estrovenga.
Do carro de boi, das cangas,
Dos chapéus envelhecidos,
Da charque.
Amarelo das doenças,
Das remelas dos olhos dos meninos,
Das feridas purulentas, dos escarros,
Das verminoses,
Das hepatites,
Dos dentes apodrecidos.
Amarelo do papel
Que embrulha a viagem
Amarelo, amarelo.
Amarelo como o canário do antigo império.
Amarelo, amarelo.
Amarelo do cabo da enxada
Vivendo no chão
Já cansado e antigo
De cara rachada
Do sorriso encardido
No rosto do povo
Fudido e sofrido
Com a carapaça cansada.
Amarelo, amarelo
Amarelo, amarelo da Oxun.
Tempo amarelo, tempo amarelo.
Amarelo que todos os dias
Fazem da poeira
O calo do tempo, em vão.
Amarelo do fosfato
Que aduba a cana de açúcar no chão
Que até a cegueira enxerga
De longe ou de perto
No claro ou na escuridão.
Amarelo, amarelo.
Amarelo de Oxun.
Amarelo...
Nação Zumbi
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
A cicatriz
Outro dia ele reparava as coisas ao seu redor. Decidiu ser uma pessoa sensível. Lera em algum lugar que sensibilidade nada mais é do que estar sempre atento ao mundo em sua volta, olhar e perceber o outro, suas ações, reações, relações consigo e com os terceiros, enfim, perceber e perceber-se. Ainda não tinha entendido ou ainda não sabia que só iria perceber-se depois que percebesse a alguém. Começou então sua tarefa. Era tão metódico que até mesmo na intenção de ser uma criatura sensível estabelecera um sistema operacional. Precisava seguir etapas como que um curso por correspondência, uma receita, enfim, algo do tipo. Primeiro escolheria o objeto, depois a observaria, levaria em conta os aspectos estranhos que o objeto lhe ofereceria, os avaliaria, tiraria conclusões, pensaria sobre, os compararia com aspectos pessoais, tiraria outras conclusões, se conheceria mais e seria, finalmente, uma criatura sensível. Começou a perceber. Olhava a todos em volta e nada demais lhe era estranho, todos comuns, iguais. Até que o grande objeto de estudo parecia ter aparecido. O grande diamante bruto pronto para ser lapidado pela futura criatura sensível parecia estar ali, diante de seus olhos. Alguém estranho. Sim, achava que para perceber as coisas elas deveriam ser estranhas aos olhos. E realmente devem, mas devem ser apenas estranhas na medida que são partes de um mundo diferente do seu, do comum, do particular, do habitual. A estranheza a que ele se referia para eleger alguém digno de observação era a estranheza extra cotidiana. A senhora entrou falando alta e estranhamente. Tinha a voz grave, gravíssima como a de quem fuma desde sua adolescência ininterruptamente. As veias do pescoço engrossavam à mínima vogal pronunciada. Todo e qualquer verbo parecia-lhe por demais sacrificioso. Olhou-a intensamente esperando algum efeito físico, químico, biológico, enfim, alguma reação no seu corpo como que o alívio da dor de dente obtido através de um remédio, alguma dormência, algum sinal da sensibilidade chegando. Nada acontecera. Mas ele não parou de observar a mulher e sua voz. Talvez aí tivesse começado o processo de mutação da criatura sensível, mas isso só ele poderá garantir. Perdeu-se olhando para a senhora até que um leve e automático gesto da observada o levou a outro estágio. Ela passara a mão pelo pescoço e ele, instintivamente seguira a mão. Parou. Não acompanhou mais a mão da senhora descendo e voltando à suas pernas. Parou no pescoço da senhora e olhou atentamente. Uma cicatriz em forma de "V" estava sob seu colo. O decote gritava a cicatriz. As duas hastes que formavam o "V" estavam bem nítidas, firmes e fortes. Ao longo delas, tanto de um lado como de outro, pequenos pontos sugerindo uma costura. Havia sido uma cirurgia. Uma cirurgia no coração. Só poderia ser. Enfarto? Pontes de safena? Artérias entupidas? Algumas possibilidades passaram pela sua cabeça, mas o que interessa disso é que uma antiga conclusão estava sendo dissolvida. A hipótese do cigarro ter criado aquela voz estava descartada. Com certeza. A cirurgia no coração foi a responsável. No mesmo instante lembrou de uma antiga companheira de trabalho de sua mãe que sofrera as mesmas etapas e possuía as mesmas conseqüências e características. Mergulhado em águas que misturavam cigarros, cirurgias, adolescência e cicatrizes deparou-se com uma saliência na ponta de seus dedos. Estava distraidamente alisando seu antebraço quando percebera um sinal. Ora, um sinal! Um sinal era uma cicatriz? Não. Não era. Fez um mapeamento geral de seu corpo e não vislumbrou nenhuma cicatriz. Ele não as possuía. Não considerava o pavor de terrenos baldios uma cicatriz. Isso porque não se lembra que foi em um desses, na sua remota infância, que lhe fora negado pela vizinha, em meio a correrias de crianças, um selinho em sua boca. Achou também que não possuíra cicatrizes porque não lembrava que só começou a gostar de morangos porque o batom da sua primeira namorada cheirava a um. Como não lembrava que hoje preferia se relacionar com pessoas do mesmo sexo e bem mais velhas que ele porque sua relação com seu pai sempre fora extremamente difícil, achava que não possuía cicatrizes. Em segundo algum daquele instante achou que não possuía cicatrizes porque não associava o fato de adorar estar sempre na companhia de seus amigos ao fato de ter sido sempre muito solitário dentro da própria casa que vivia cheia de gente. Hoje, depois de tudo que observou, percebeu e percebeu-se, já deve considerar o pavor de terrenos baldios e as outras coisas uma cicatriz. Já deve, também, ter identificado várias outras nele. Já deve também ter percebido que cicatrizes são meros sinalizadores, sejam eles de coisas boas ou ruins. Elas estão ali somente para dizer que algo aconteceu. Se, depois de ter vivido tudo que viveu, observado tudo que observou e percebeu, tudo que percebeu-se, se depois de tudo isso tiver entendido o papel simples das cicatrizes e, principalmente, das suas cicatrizes, ele hoje é uma criatura sensível. Atingira seu objetivo. Talvez sem nem precisar de seu plano operacional.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Constituíra-se idéia fixa.

Quando as idéias povoavam a minha mente e iam preenchendo-a até tornarem-se fixas, até constituírem-se atos era um verdadeiro caos. Atrapalhavam-me os cálculos, vinham para destrambelhar tudo. Outro dia encasquetei que deveria te fazer uma visita. Preciso, preciso, preciso. Não precisava na realidade, mas já era tarde demais. Elas já haviam tomado conta de tudo. As idéias... Resolvi fazê-lo, até porque de todas as que me apareceram nos últimos 28 dias essa fora a menos complexa e trabalhosa porque você sempre fora uma vítima bastante receptiva a elas. Já sabia até como iria te encontrar. Janela aberta, seu dorso aparente, o vestido verde com estampa de minúsculas flores, corredor habitado apenas pelo finíssimo uivo da brisa que vinha do quintal, cozinha preenchida pela sua presença entregue a algum afazer doméstico com a maior satisfação do mundo, puro hobby. Enganei-me. Encontrei você apoiando-se com o cotovelo à mesa, mão no queixo, olhos fechados. Dormia. Ah essas idéias... Chegaram a um ponto de me surpreenderem com as coisas mais tolas e óbvias. Até a mais simples, a que não me daria trabalho, a que envolvia você era agora incompreensível. Como iria imaginar que te pagaria dormindo bem na hora da minha visita? Esperei um pouco, bem pouco mesmo. 5 segundos. O tempo suficiente para perceber que havia feito uma besteira, desistir, querer ir embora, mudar de idéia e decidir por ficar ali. Fiquei mais. 13 minutos e você dormindo na mesma posição. Me aproximei mais da mesa com o intuito de fazê-la acordar. Nada de fazer barulho fingindo que havia sido um descuido. A intenção era só fazer o meu calor te suspender um pouco daquela sesta. Planos frustrados. Ah essas idéias... Puxei uma cadeira e, dessa vez sim, fazendo barulho para que você despertasse e nada. Sentei-me, era o jeito. Esperar. Te observei uns minutos, não contei esses porque me perdi e acabei entrando em seu sono. Dormi com você. Cotovelo apoiado na mesa, mão no queixo, te observando, pálpebras caindo, dormi. Sonhei. Com você. Sonhei que encasquetava que deveria te fazer uma visita, ia e te encontrava dormindo. Resolvia entrar nos teus sonhos. Eles são normais. Bem normais. Sempre quis ter sonhos normais. Os meus são sempre comigo mesmo, com o que eu não fiz, com o que queria fazer e, os piores deles, com o que eu fiz. Estavam meio cinzas os teus sonhos. Resolvi mexer neles um pouco. Desculpe-me, mas não pude evitar. Baguncei um pouco, é verdade, mas não foi minha intenção. E se tivesse sido acho que você até me agradeceria porque eles ficaram um pouco melhores depois dos meus arranjos e combinações. Não estavam coloridos como se deve ser todo sonho que se preze, mas estavam tendendo mais pro azul agora. Te coloquei correndo levemente brincando com o vento. Descalça. Estava linda. Essa era a hora certa de sair dali. Era a hora mais bonita do teu sonho, pelo menos a hora em que você estava mais bonita. Precisava sair dali correndo antes que você acordasse e me pegasse com a boca na botija ou pior, antes que eu acordasse e não ficasse mais com aquela imagem fixa na mente. Essa era a imagem que eu queria guardar, você correndo levemente brincando com o vento. Ao acordar dali iria te encontrar ainda dormindo ou acordada, não sei, mas estaria com a lembrança de um sonho bom e colorido. Um dos que não tenho há mito tempo. O sonho da moça que corre e brinca com o vento.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
E vamos abrindo os caminhos...

Desde pequena Mariene queria ser bailarina. Começou a estudar balé aos cinco anos de idade. Seu contato com a música veio do ambiente familiar, pois de acordo com ela "na minha casa todo mundo cantava ou tocava algum instrumento". Aos doze anos, Mariene quis aprender a tocar violão e pediu a sua mãe que a levasse a uma escola de música. Quando chegou à escola de música pela primeira vez, viu-se interessada nas aulas de canto. O professor de canto, insistiu para que Mariene fizesse uma aula sem compromisso. Foi então que ela descobriu que possui um timbre de voz muito raro, o contralto. Sua mãe não tinha dinheiro o suficiente para pagar os dois cursos, o de violão e o de canto, e o professor de canto acabou convencendo-as para que ela fizesse apenas o de canto.
Mariene começou sua carreira profissional como vocal de apoio para Timbalada, Carlinhos Brown e Márcia Freire. Certo dia, um amigo de sua mãe, Vicente Sarno, conseguiu uma data para ela no projeto Pelourinho Dia e Noite. Foi seu primeiro show, em dezembro de 1996. No dia do show, dois produtores franceses procuraram-na, dizendo que estavam atrás de uma artista emergente. Então Mariene seguiu para a França, onde realizou vários shows que foram bem recebidos pela crítica local. Quando voltou ao Brasil, no entanto, demorou sete anos para conseguir gravar o seu primeiro álbum, Abre Caminho. O álbum ganhou o prêmio TIM de melhor disco regional.
Tô apaixonado! Fantástica! Sem contar que tem alguma coisa de Clara né...rsrsrsrsrs.
Mariene por Mariene:
http://www.youtube.com/watch?v=YGpodXmqpSc
O vídeo é muito pesado e não consigo postar, mas vale a pena ver! É lindo!
domingo, 1 de fevereiro de 2009
De pouquinho em pouquinho.
Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
Hermínio Bello de Carvalho
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