quinta-feira, 31 de maio de 2012

Como sempre, muito bom:


Eita que começou junho!

Mês do povo nordestino celebras, festejar, dançar, comer tudo que é do bom e do melhor até dizer chega!

Viva Santo Antônio!
Viva São João!
Viva São Pedro!

Viva o Nordeste!!!


O sexo contém tudo. Corpos, almas, sentidos, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, cantos, ordem, saúde, o mistério materno, o leite seminal, todas as esperanças, todos os benefícios, todas as dádivas, paixões, amores, encantos, gozos da terra, todos os deuses, juízes, governos, pessoas do mundo e seus seguidores. Tudo. Tudo está contido no sexo como parte dele ou como sua razão de ser.

Walt Whitman

sexta-feira, 11 de maio de 2012


"Sobre quando o que é realmente importante nos move". Isso poderia ser um epitáfio para Silvero Pereira. Dramático? Sim. Da mesma forma ele também o é, o que ele faz, o que o move, o que está em volta dele, a reação das pessoas ao seu redor... Esta semana surgiu uma enxurrada de matérias em jornais, sites, blogs, programas de TV e afins sobre o Translendário, uma criação artística do ator Silvero Pereira e sua equipe. O objeto artístico da vez trata-se de um calendário onde em cada mês há uma fotografia produzida especificamente para ele.

As fotografias dizem respeito e fazem referências a inúmeras coisas, datas importantes para o movimento LGBT são mencionadas e uma dose de humor (inerente a essa galera, tanto aos travestis quanto aos atores que acompanham Silvero) permeiam as folhinhas. Obras de arte são recriadas como a Mona Lisa e a Última Ceia de Leonardo da Vinci e a Pietá de Michelangelo. Releituras muito bem produzidas. O imbróglio se deu porque o deputado estadual Fernando Hugo (PSDB/CE) se sentiu ofendido por algumas imagens religiosas fazerem parte da obra e porque a Prefeitura Municipal de Fortaleza havia apoiado o Translendário.

Muito se foi dito: as obras são universais e não religiosas, os artistas criadores das obras originais nem religião tinham, a prefeitura, enquanto organismo laico, poderia sim apoiar iniciativas como essa, não houve apoio financeiro, etc. Detalhes. A questão é maior assim como Silvero, seu trabalho e sua trupe também o são. Ah, e vale ressaltar que todo o elenco envolvido é de profissionais da área artística, ou seja, desenvolvem um trabalho de elaboração artística para a criação das personagens-travestis. Isso não melhora nem piora nada. Só atesta.

Silvero tem desenvolvido um trabalho e uma pesquisa artística e social sobre o universo das travestis e transexuais há algum tempo em Fortaleza. Seu trabalho tem ecoado pela sociedade, trazido um público grande e diversificado para o teatro e, assim, o artista tem alcançado respeito profissional e pessoal e sua obra juntamente com seus temas tem sido mostrados para o público, atrelados a um início de reflexão e discussão sobre os mesmos.

Silvero e seu trabalho artístico (reflito sobre se essas duas coisas se dissociam) vão muito além de  qualquer polêmica sensacionalista elaborada para desviar um debate necessário à sociedade brasileira atual. Vão também muito além de qualquer piada de mau gosto porque vão ao centro da questão: o ser humano. A trajetória pessoal e artística (realmente elas não se dissociam) de Silvero provam isso. Contra fatos não há argumentos. É inegável a honestidade, a responsabilidade e a competência com que Silvero sempre desenvolveu suas coisas, se apropriou de outras, transformou algumas e criou mais um bocado.

Acho que tenho um pouco de conhecimento de causa pra falar disso. Acompanho o trabalho de Silvero desde quando "A dama da noite" de Caio Fernando Abreu (engana-se quem acha que tudo começou aqui. Tudo começou em Silvero. Dentro dele.) era apenas um esquete ainda em processo de ensaio para um festival em Fortaleza apresentado para alguns amigos na sala de aula da Casa de Artes do curso de artes cênicas do antigo CEFET-CE. Vi, vimos, alguma coisa ali. Não soubemos o que era. Nada havia se apresentado daquela forma para nós porque era muito pessoal, particular, por isso genuíno. Arrisco dizer que nem Silvero sabia o que era e muito menos no que se tornaria, mas ele certamente iria fazê-lo sem pensar sistematicamente nisso porque era um curso natural. Era necessário.

Com o passar dos anos a coisa só aumentou. Espaços profundos para serem explorados foram encontrados dentro de Silvero. Milhões de assuntos sobre o mesmo tema ainda não o haviam esgotado. Ecos criados dentro dos espaços profundos alardeavam pela cidade. "Nem tudo ainda foi dito." Lembro-me bem dessa frase de Silvero em meio a uma das tantas rodas de conversa sobre teatro, vida, cidade e sociedade. Silvero elegeu uma camada da nossa sociedade que herdou e carrega impiedosa e gratuitamente um profundo e monstruoso desrespeito como seu alvo de interesse, pesquisa e estudo (artístico, social e humano), o universo das travestis e transexuais. Aqui também reflito se foi Silvero que o elegeu ou se isso é caso de predestinação. Vai saber...

O fato é que tentar mostrar que há algo de humano no que é diferente de uma maioria não é só ignorado como essas pessoas que vivem à margem de uma sociedade como a nossa são. Isso é também rejeitado, rechaçado, violentamente agredido da forma mais covarde possível.

Não podemos desviar a atenção dos fatos. Não há nada com religião. Não há nada com escolhas. Há tudo com o que se é sem se pensar como ou porquê. Precisamos de um debate justo sobre todos os indivíduos que compõem uma sociedade, seus direitos, seus deveres, o respeito devido a cada ser humano. Isso não é fácil e está muito longe de acontecer. Somos todos humanos e precisamos ser tratados assim. A única coisa que vai dizer respeito ao seu caráter é ele próprio. Nada mais. Nenhuma opção, nenhuma identidade.  Antes de tudo, humanos.

Pra quem começar esse debate desejo muita fé, força coragem e garra. Será necessário. Acho que alguém já começou. Lá na sala de aula.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Cadê a pessoa?

Sobre quando as coisas são mais importantes do que as relações humanas.

Sobre quando se percebe isso.

Sobre quando há tempo para reparar. Não porque esteja errado, mas para que se viva melhor.

Mais um ótimo texto da Eliane Brum. Boa leitura!

***

“Eu não acho, não acho”. A voz aflita de B no celular me alarma. Há meses eu só uso o aparelho para pegar recados ou ligar para amigos com a mesma operadora. Mas, por esquecimento, ele estava ligado, e o nome dela apareceu na tela, junto com o toque de urgência que me faz detestar celulares. Atendi. E, desta vez, era uma urgência. Passei muito tempo sem ver B, anos, e um dia, neste último fevereiro, nos encontramos em um curso de literatura russa. Isaac Bábel, mais especificamente, nos uniu de novo. “O que você não acha?”, perguntei, com certa precaução na voz. B é talvez mais intensa do que eu e está sempre às voltas com dilemas que não estão nos jornais. “A pessoa”, ela disse. “Eu não acho a pessoa.”

Fui na hora tomada por uma golfada de felicidade. Ela não estava aflita porque perdera o informe do imposto de renda enviado pelo banco, ou seus brincos de pérola, ou um vinil dos Secos & Molhados. Não. B perdera a pessoa.

“Hum”, fiz eu, em boa performance psicanalítica. B explicou-me então que não sabia quando perdera a pessoa, mas podia localizar o momento exato em que descobrira que a tinha perdido. Ela tomava um chocolate quente e tentava ler as notícias do jornal. O Cachoeira, o Demóstenes, a mulher amantíssima do Cachoeira, a votação das cotas raciais no Supremo, a popularidade da Dilma, o Código Florestal...

Neste ponto da leitura, B havia corrido ao Twitter para entrar na campanha “Veta Dilma. Veta Tudo”. Engatou alguns diálogos de 140 caracteres com desconhecidos conhecidos, deu alguns cliques e, quando voltou a tomar um gole de chocolate, percebeu que o leite esfriara. Foi nesse instante, me garantiu ela, que descobriu que tinha perdido a pessoa.

B tinha acabado de ler um conto e um romance russos. O famoso “A dama do cachorrinho”, de Tchekhov, e o “Oblómov”, de Ivan Gontcharov. A combinação dos dois fez com que uma lâmpada se acendesse dentro de B – e, de súbito, ela descobriu o que não estava mais lá. A pessoa.


Em “A Dama do Cachorrinho”, Tchekhov nos mostra, através de uma história de amor, que temos duas vidas: uma visível, assumida, às claras; e outra secreta. Uma “evidente”, “cheia de verdades convencionais e de mentiras convencionais”, exatamente igual a de todos; e outra que transcorre nos vãos.


No caso do personagem de Tchekhov, tudo o que era para ele indispensável, relevante e sincero, tudo o que não era engano, se passava no escuro de si. E tudo o que era “sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia para encobrir a verdade”, como seu trabalho no banco, as discussões no clube, os compromissos sociais com a esposa, tudo isso era visto e compreendido como se fosse ele – mas era apenas aquilo que o ocultava.

Neste ponto, B começou a chorar. “Não vale a pena ter uma vida em que o mais importante de mim precise respirar nas sombras”, dizia. “Meus eus devem coincidir.” Havia uma nota tão rascante em seu choro, como uma porta enferrujada por anos que começa a se abrir à força.“Você é tudo isso”, eu disse, numa tentativa de consolo. “Inclusive essa máscara social que você usa para que o mundo não te mastigue.”

B apenas chorou mais. “Você não está entendendo. Eu não estou recusando o contraditório de mim. Eu estou recusando essa máscara que me torna alguém plano e palatável. Vale a pena viver escondendo as verdades que mais me importam?” B agora tinha raiva, e apontava essa raiva para mim. Ela continuou: “Se o mundo quiser me mastigar, que mastigue. Mastigará carne, e não um cupcake.” Desta vez, eu apenas disse: “Estou indo praí”.

Encontrei B estatelada no sofá, olhando para o teto. O rosto inchado de choro, mas já com o peito subindo e descendocom regularidade. Eu não havia lido o “Oblómov”, porque nunca encontrei uma tradução para o português que me animasse. Mas sabia que era uma sátira sobre a imobilidade da aristocracia russa em meados do século XIX, diante dos acontecimentos que precederam e anunciaram a revolução de 1917.

Não para B.

Durante mais ou menos 150 páginas de romance, Oblómov não sai do seu sofá. Incapaz de agir e de escolher, o personagem se imobiliza. Como B, no momento em que me conta sobre ele. Oblómov recebe visitas de pessoas que representam diferentes papéis no espectro da sociedade da época. E, quando essas pessoas lhe contam do mundo, lhe contam do mundo por suas ações e pelas ações de outros, Oblómov só faz pensar: “Cadê a pessoa?”.

Pensei que B estava adivinhando sentidos no romance que só faziam sentido em seu estado delirante. Mas, dois dias depois do enigmático telefonema de B, eu me distraía com um livro bastante delicioso chamado “Os possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores” (Leya), quando descobri que a autora, Elif Batuman, tinha lido “Oblómov” com um olhar muito semelhante ao de B.

Em seu livro, Batuman, uma americana de origem turca que hoje vive em Istambul, entrelaça os escritores russos e seus protagonistas com os personagens contemporâneos do mundo acadêmico que inventam sentidos para suas vidas a partir da interpretação de suas obras. E o faz com humor, sensibilidade e sarcasmo. Sorri ao pensar que B e eu também cometíamos um pequeno enredo desatinado, às voltas com os russos que nos uniram por acaso depois de tanto tempo.

Batuman afirma, em um dos ensaios do livro: “Vejo agora que o problema da pessoa era a chave da preguiça de Oblómov. Ele é tão avesso a se reduzir a soma das ações que decide sistematicamente não agir– e desse modo revelar mais inteiramente sua verdadeira pessoa, e deleitar-se nela, não adulterado”. Publicado em 1859, “Oblómov” quase coincide, no tempo, com a obra-maravilha do americanoHerman Melville: “Bartleby, o escriturário”, livro que faz parte dos meus amores mais profundos. Como Oblómov, mas diferente dele, Bartleby a tudo apenas dizia: “Prefiro não fazer”.

Assim é descrita uma das visitas recebidas por Oblómov em seu já mítico sofá. “Um antigo colega do serviço público conta a Oblómov da sua recente promoção a chefe de seção, seus novos privilégios e responsabilidades. ‘Com o tempo ele será um figurão e conseguirá um alto posto’, Oblómov pondera. ‘Isso é o que a gente chama de uma carreira! Mas como requer pouco da pessoa: sua mente, seu desejo, suas emoções não são necessárias.’ Esticando os membros, Oblómov sente-se orgulhoso por não ter relatórios a preencher e pelo fato de ali no sofá ‘haver amplo espaço tanto para as suas emoções como para a sua imaginação’. ”

Um século e meio mais tarde, B, no sofá da sala de seu apartamento de classe média paulistana, encarna Oblómov à sua própria maneira: “Cadê a pessoa?”. Ou: “Perdi a pessoa!”. B conta-me que se sente exposta, toda virada pra fora, uma mulher em seu avesso. Nos últimos anos ela se tornara uma personagem das redes sociais. E , desde que nos reencontramos, tenta me convencer a entrar no Facebook. B gosta de viver em rede e está longe de ser uma solitária que achou um jeito de existir na internet. Apenas que ela pensara ter se feito presente ali mais do que em qualquer outra geografia. Mas, de repente, B não mais se reconhece no personagem que criou. “Virei uma prisioneira”, ela diz. “Do quê?”, pergunto eu, a essa altura já bastante perturbada. “Dessa persona pública que me tornei. Todo mundo me conhece, e eu me desconheço.”

B descobrira que era uma pessoa – sem pessoa. “Estou reduzida a ações, a verbos. Virei um noticiário, eu, que nunca acreditei em fatos. Mesmo quando analiso, quando infiro, quando relaciono... são ações. É um eco, só um eco. Não sei mais onde está a voz que o gerou.” Diante dela, eu tentava descobrir a pessoa em mim que poderia resgatar a pessoa de B. Aquilo que me levara a deixar a minha casa no meio de uma manhã de trabalho para ajudá-la a procurar não o passaporte ou o título de eleitor, mas a pessoa que havia se desgarrado dela. Encolhi-me na poltrona, antes de arriscar. “Ninguém te conhece. E você não conhece ninguém”, disse. E minha voz saiu mais aguda do que eu planejara. “São poucos os que podem nos conhecer, o resto é o bando que se alimenta e se protege mutuamente, ferindo quem for preciso para não ter sua posição ameaçada. Você quer ofertar seu corpo verdadeiro para que o canibalizem?”

Eu também estava confusa. “Há uma escuridão, e eu sou essa escuridão”,repetia B. “E lá, em algum ponto desse buraco negro, há uma pessoa que grita, mas ela está presa na nuvem. A conexão se perdeu, eu me perdi.” Percebi que B, minha amiga mais presente, no presente, a mais pública, a mais conectada sentia-se incorpórea. Sentia-se uma pessoa sem pessoa – e também sem corpo.

Quando juntas estudávamos a obra de Isaac Bábel, eu e B havíamos chorado ao tomarmos conhecimento da lista dos pertences encontrados no apartamento do escritor, em Moscou. Bábel fora preso pela polícia de Stálin. Seus manuscritos foram confiscados, seu nome apagado de enciclopédias, dicionários literários e roteiros de cinema, seus óculos quebrados, seu corpo torturado e, até ser executado por um pelotão de fuzilamento, tudo o que ele pedia era: “Deixem-me concluir minha obra”. Os manuscritos de Bábel desapareceram, e ele será sempre um homem inconcluso – como todos nós e, de certo modo, mais que todos. Mas o que fez eu e B nos comovermos para além da brutalidade do regime de Stálin, que executara também as letras de Bábel,foi descobrir no espólio do escritor“um pato de banho”.

Se a pessoa de Bábel estava em algum lugar, pensei, era naquele pato de borracha. Sem saber o que fazer, lançada na claridade pela lucidez excessiva de B, agarrei forte a sua mão. Agarrei para machucar, para que B sentisse as minhas unhas. Eu sabia que, se a “pessoa” de nós estava em algum lugar, era naquele toque que nos impedia de submergir no que o personagem de Tchekhov chamou de “verdades convencionais e mentiras convencionais”.

Não me parece que B seja a única a vagar por aí gritando: “Cadê a pessoa?”. Por isso pedi a ela autorização para contar da sua perda a vocês. B a deu na hora. Mas quando lhe perguntei se poderia colocar seu nome, ela negou com veemência: “Se você revelar meu nome, eu perderei a pessoa para sempre. A pessoa está fora do nome”.