Sobre quando se percebe isso.
Sobre quando há tempo para reparar. Não porque esteja errado, mas para que se viva melhor.
Mais um ótimo texto da Eliane Brum. Boa leitura!
***
“Eu não acho, não acho”. A voz aflita de B no celular me alarma. Há
meses eu só uso o aparelho para pegar recados ou ligar para amigos com a mesma
operadora. Mas, por esquecimento, ele estava ligado, e o nome dela apareceu na
tela, junto com o toque de urgência que me faz detestar celulares. Atendi. E,
desta vez, era uma urgência. Passei muito tempo sem ver B, anos, e um dia,
neste último fevereiro, nos encontramos em um curso de literatura russa. Isaac
Bábel, mais especificamente, nos uniu de novo. “O que você não acha?”,
perguntei, com certa precaução na voz. B é talvez mais intensa do que eu e está
sempre às voltas com dilemas que não estão nos jornais. “A pessoa”, ela disse.
“Eu não acho a pessoa.”
Fui na hora tomada por uma golfada de felicidade. Ela não estava aflita
porque perdera o informe do imposto de renda enviado pelo banco, ou seus
brincos de pérola, ou um vinil dos Secos & Molhados. Não. B perdera a
pessoa.
“Hum”, fiz eu, em boa performance psicanalítica. B explicou-me
então que não sabia quando perdera a pessoa, mas podia localizar o momento
exato em que descobrira que a tinha perdido. Ela tomava um chocolate quente e
tentava ler as notícias do jornal. O Cachoeira, o Demóstenes, a mulher amantíssima
do Cachoeira, a votação das cotas raciais no Supremo, a popularidade da Dilma,
o Código Florestal...
Neste ponto da leitura, B havia corrido ao Twitter para entrar na
campanha “Veta Dilma. Veta Tudo”. Engatou alguns diálogos de 140 caracteres com
desconhecidos conhecidos, deu alguns cliques e, quando voltou a tomar um gole
de chocolate, percebeu que o leite esfriara. Foi nesse instante, me garantiu
ela, que descobriu que tinha perdido a pessoa.
B tinha acabado de ler um conto e um romance russos. O famoso “A dama do
cachorrinho”, de Tchekhov, e o “Oblómov”, de Ivan Gontcharov. A combinação dos
dois fez com que uma lâmpada se acendesse dentro de B – e, de súbito, ela
descobriu o que não estava mais lá. A pessoa.
Em “A Dama do Cachorrinho”, Tchekhov nos mostra, através de uma história
de amor, que temos duas vidas: uma visível, assumida, às claras; e outra
secreta. Uma “evidente”, “cheia de verdades convencionais e de mentiras
convencionais”, exatamente igual a de todos; e outra que transcorre nos vãos.
No caso do personagem de Tchekhov, tudo o que era para ele
indispensável, relevante e sincero, tudo o que não era engano, se passava no
escuro de si. E tudo o que era “sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia
para encobrir a verdade”, como seu trabalho no banco, as discussões no clube,
os compromissos sociais com a esposa, tudo isso era visto e compreendido como
se fosse ele – mas era apenas aquilo que o ocultava.
Neste ponto, B começou a chorar. “Não vale a pena ter uma vida em que o
mais importante de mim precise respirar nas sombras”, dizia. “Meus eus devem
coincidir.” Havia uma nota tão rascante em seu choro, como uma porta
enferrujada por anos que começa a se abrir à força.“Você é tudo isso”, eu
disse, numa tentativa de consolo. “Inclusive essa máscara social que você usa
para que o mundo não te mastigue.”
B apenas chorou mais. “Você não está entendendo. Eu não estou recusando
o contraditório de mim. Eu estou recusando essa máscara que me torna alguém
plano e palatável. Vale a pena viver escondendo as verdades que mais me
importam?” B agora tinha raiva, e apontava essa raiva para mim. Ela continuou:
“Se o mundo quiser me mastigar, que mastigue. Mastigará carne, e não um
cupcake.” Desta vez, eu apenas disse: “Estou indo praí”.
Encontrei B estatelada no sofá, olhando para o teto. O rosto inchado de
choro, mas já com o peito subindo e descendocom regularidade. Eu não havia lido
o “Oblómov”, porque nunca encontrei uma tradução para o português que me
animasse. Mas sabia que era uma sátira sobre a imobilidade da aristocracia
russa em meados do século XIX, diante dos acontecimentos que precederam e
anunciaram a revolução de 1917.
Não para B.
Durante mais ou menos 150 páginas de romance, Oblómov não sai do seu
sofá. Incapaz de agir e de escolher, o personagem se imobiliza. Como B, no
momento em que me conta sobre ele. Oblómov recebe visitas de pessoas que
representam diferentes papéis no espectro da sociedade da época. E, quando
essas pessoas lhe contam do mundo, lhe contam do mundo por suas ações e pelas
ações de outros, Oblómov só faz pensar: “Cadê a pessoa?”.
Pensei que B estava adivinhando sentidos no romance que só faziam
sentido em seu estado delirante. Mas, dois dias depois do enigmático telefonema
de B, eu me distraía com um livro bastante delicioso chamado “Os possessos –
aventuras com os livros russos e seus leitores” (Leya), quando descobri que a
autora, Elif Batuman, tinha lido “Oblómov” com um olhar muito semelhante ao de
B.
Em seu livro, Batuman, uma americana de origem turca que hoje vive em
Istambul, entrelaça os escritores russos e seus protagonistas com os
personagens contemporâneos do mundo acadêmico que inventam sentidos para suas
vidas a partir da interpretação de suas obras. E o faz com humor, sensibilidade
e sarcasmo. Sorri ao pensar que B e eu também cometíamos um pequeno enredo
desatinado, às voltas com os russos que nos uniram por acaso depois de tanto
tempo.
Batuman afirma, em um dos ensaios do livro: “Vejo agora que o problema
da pessoa era a chave da preguiça de Oblómov. Ele é tão avesso a se reduzir a
soma das ações que decide sistematicamente não agir– e desse modo revelar mais
inteiramente sua verdadeira pessoa, e deleitar-se nela, não adulterado”.
Publicado em 1859, “Oblómov” quase coincide, no tempo, com a obra-maravilha do
americanoHerman Melville: “Bartleby, o escriturário”, livro que faz parte dos
meus amores mais profundos. Como Oblómov, mas diferente dele, Bartleby a tudo
apenas dizia: “Prefiro não fazer”.
Assim é descrita uma das visitas recebidas por Oblómov em seu já mítico
sofá. “Um antigo colega do serviço público conta a Oblómov da sua recente
promoção a chefe de seção, seus novos privilégios e responsabilidades. ‘Com o
tempo ele será um figurão e conseguirá um alto posto’, Oblómov pondera. ‘Isso é
o que a gente chama de uma carreira! Mas como requer pouco da pessoa: sua
mente, seu desejo, suas emoções não são necessárias.’ Esticando os membros,
Oblómov sente-se orgulhoso por não ter relatórios a preencher e pelo fato de
ali no sofá ‘haver amplo espaço tanto para as suas emoções como para a sua
imaginação’. ”
Um século e meio mais tarde, B, no sofá da sala de seu apartamento de
classe média paulistana, encarna Oblómov à sua própria maneira: “Cadê a
pessoa?”. Ou: “Perdi a pessoa!”. B conta-me que se sente exposta, toda virada
pra fora, uma mulher em seu avesso. Nos últimos anos ela se tornara uma
personagem das redes sociais. E , desde que nos reencontramos, tenta me
convencer a entrar no Facebook. B gosta de viver em rede e está longe de ser
uma solitária que achou um jeito de existir na internet. Apenas que ela pensara
ter se feito presente ali mais do que em qualquer outra geografia. Mas, de
repente, B não mais se reconhece no personagem que criou. “Virei uma
prisioneira”, ela diz. “Do quê?”, pergunto eu, a essa altura já bastante
perturbada. “Dessa persona pública que me tornei. Todo mundo me conhece, e eu
me desconheço.”
B descobrira que era uma pessoa – sem pessoa. “Estou reduzida a ações, a
verbos. Virei um noticiário, eu, que nunca acreditei em fatos. Mesmo quando
analiso, quando infiro, quando relaciono... são ações. É um eco, só um eco. Não
sei mais onde está a voz que o gerou.” Diante dela, eu tentava descobrir a
pessoa em mim que poderia resgatar a pessoa de B. Aquilo que me levara a deixar
a minha casa no meio de uma manhã de trabalho para ajudá-la a procurar não o
passaporte ou o título de eleitor, mas a pessoa que havia se desgarrado dela.
Encolhi-me na poltrona, antes de arriscar. “Ninguém te conhece. E você não
conhece ninguém”, disse. E minha voz saiu mais aguda do que eu planejara. “São
poucos os que podem nos conhecer, o resto é o bando que se alimenta e se
protege mutuamente, ferindo quem for preciso para não ter sua posição ameaçada.
Você quer ofertar seu corpo verdadeiro para que o canibalizem?”
Eu também estava confusa. “Há uma escuridão, e eu sou essa
escuridão”,repetia B. “E lá, em algum ponto desse buraco negro, há uma pessoa
que grita, mas ela está presa na nuvem. A conexão se perdeu, eu me perdi.”
Percebi que B, minha amiga mais presente, no presente, a mais pública, a mais
conectada sentia-se incorpórea. Sentia-se uma pessoa sem pessoa – e também sem
corpo.
Quando juntas estudávamos a obra de Isaac Bábel, eu e B havíamos chorado
ao tomarmos conhecimento da lista dos pertences encontrados no apartamento do
escritor, em Moscou. Bábel fora preso pela polícia de Stálin. Seus manuscritos
foram confiscados, seu nome apagado de enciclopédias, dicionários literários e
roteiros de cinema, seus óculos quebrados, seu corpo torturado e, até ser
executado por um pelotão de fuzilamento, tudo o que ele pedia era: “Deixem-me
concluir minha obra”. Os manuscritos de Bábel desapareceram, e ele será sempre
um homem inconcluso – como todos nós e, de certo modo, mais que todos. Mas o
que fez eu e B nos comovermos para além da brutalidade do regime de Stálin, que
executara também as letras de Bábel,foi descobrir no espólio do escritor“um
pato de banho”.
Se a pessoa de Bábel estava em algum lugar, pensei, era naquele pato de
borracha. Sem saber o que fazer, lançada na claridade pela lucidez excessiva de
B, agarrei forte a sua mão. Agarrei para machucar, para que B sentisse as
minhas unhas. Eu sabia que, se a “pessoa” de nós estava em algum lugar, era
naquele toque que nos impedia de submergir no que o personagem de Tchekhov
chamou de “verdades convencionais e mentiras convencionais”.
Não me parece que B seja a única a vagar por aí gritando: “Cadê a
pessoa?”. Por isso pedi a ela autorização para contar da sua perda a vocês. B a
deu na hora. Mas quando lhe perguntei se poderia colocar seu nome, ela negou
com veemência: “Se você revelar meu nome, eu perderei a pessoa para sempre. A
pessoa está fora do nome”.
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