Elza sempre me punha pra dormir sob a promessa infantil de guardar o horizonte dentro do sutiã para que ele não fugisse dali e colocá-lo novamente em seu devido lugar minutos antes de me acordar. Hoje acho essa promessa infantil, mas naquela época não. Pelo contrário. Lembro que da frente da minha casa conseguia enxergar tudo no mundo, até porque todo o mundo estava ali. Era um descampado que não tinha mais fim e que todos os ventos que circulavam pela Terra passavam antes lá, uivavam e seguiam. A única coisa que se avistava da frente da minha casa era o horizonte e, por isso, ele era tão importante pra mim. Era a companhia dele e da gorda que me valiam na maioria das vezes. O azul do céu se encontrava com o amarelado da terra lá na frente e eu nunca chegava lá mesmo que andasse qualquer distância. Lembro que um dia andei muito e não cheguei lá. Era muito longe. Tive que voltar e desistir. Nunca fui muito persistente e já que ele estava ali sempre, pra mim bastava. Confiava muito em Elza e não havia outro caminho afinal, ela sempre guardava e depois trazia o horizonte de volta, assim acreditava eu. Acho que devia ser por isso aquele cheiro de rosa em volta da minha casa. Devia ser do perfume que Elza passara entre os seios que acabou aderindo ao horizonte. Ele tinha o perfume de Elza. Muito agradável. Coitada... Só assim pra me fazer dormir e se livrar por algumas horas das minhas perguntas difíceis de responder. Elza nunca se negou a tentar responder alguma, muito pelo contrário, sempre respondeu todas. Coisas do tipo: “Por que as formigas fazem questão de se manter organizadas aqui fora se nenhum de nós dois consegue entrar no formigueiro?” Pra tudo havia uma paciente resposta. Nunca fiquei sem resposta porque as perguntas, segundo ela, eram difíceis de responder, mas havia resposta. Hoje tento cumprir todas as promessas que faço a Elza, tento atender todos os pedidos dela. O que mais me consome é que de todos, fui incompetente no mais fácil: continuar acreditando que ela guardava o horizonte dentro de seu sutiã. Não sei por que a traí e não consigo mais acreditar nessa história mesmo sabendo que ele é a mais pura verdade.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Traje-nuvem
O paletó era de linho branco. Era muito alvo e denunciava logo o seu pouco uso. Suas linhas retas e tesas também. Era usado somente em ocasiões muito especiais. A festa de Yemanjá era uma delas. Era o dia dos agradecimentos pelo ano de fartura nas redes de pesca ou o dia de súplicas quando o ano não era tão farto. Deixava de usar branco, sua cor preferida, no dia de virada de ano porque a data era muito próxima do dia 2 de fevereiro. Talvez o paletó manchasse, desgastasse ou simplesmente estaria sendo repetido em ocasiões muito próximas, o que lhe tirava o status de, em suas próprias palavras, "roupa importante" e isso já era suficiente para deixá-lo guardado no dia 31 de dezembro. Todo dia 2 de fevereiro estava ele lá, rígido. Primeiro porque a seriedade e o respeito pela ocasião lhe deixavam assim naturalmente. Segundo porque a peça era passada a ferro com goma, ficava dura e não havia uso que lhe desse leveza, balanço e caimento. Dependendo do santo a quem houvera feito a promessa, pedido, agradecimento e afins, a camisa e a gravata poderiam mudar de cor nas festas de fevereiro. Claro, a homenagem principal era para ela, para a sereia, mas gente como ele tem muito o que depender do auxílio de quem não está por aqui. Nada mais justo que agradecer, à sua forma, mas agradecer. Afora o dia de homenagens à sereia ele só usou o paletó no dia do falecimento de sua esposa. A velha o deixara por volta das quatro da manhã. Hora eleita pelos dois como a mais bonita do dia especialmente quando as nuvens começavam a ganhar um tomzinho amarelo-queimado nas bordas e os primeiros raios de sol começavam a aparecer. A despedida era outra ocasião de respeito. Neste dia ele estava totalmente de branco completando com camisa, gravata, sapatos e meias o traje-nuvem. O fato é que até aqui tudo que relatei não passa de lembranças da infância de um homem apaixonado pela devoção sem ele mesmo saber disso. Hoje o paletó não é mais branco ou, pelo menos, não é mais tão alvo. Tornou-se traje corriqueiro e habitual. Não! As coisas não estão tão banais nem ele está tão desrespeitoso assim. O fato é que agora todos os dias são ocasiões especiais. Especialíssimas. Pelo menos todos os dias se espera por elas. Por ela. Todos os dias ele veste seu paletó e senta à beira da sua calçada que faz fronteira com a areia da praia e esperava as nuvens e o céu mudarem de cor. Ali ele recebe a visita do nascer do sol e com ele uma breve aparição do sorriso da falecida esposa.
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