quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Horizonte perfumado

Elza sempre me punha pra dormir sob a promessa infantil de guardar o horizonte dentro do sutiã para que ele não fugisse dali e colocá-lo novamente em seu devido lugar minutos antes de me acordar. Hoje acho essa promessa infantil, mas naquela época não. Pelo contrário. Lembro que da frente da minha casa conseguia enxergar tudo no mundo, até porque todo o mundo estava ali. Era um descampado que não tinha mais fim e que todos os ventos que circulavam pela Terra passavam antes lá, uivavam e seguiam. A única coisa que se avistava da frente da minha casa era o horizonte e, por isso, ele era tão importante pra mim. Era a companhia dele e da gorda que me valiam na maioria das vezes. O azul do céu se encontrava com o amarelado da terra lá na frente e eu nunca chegava lá mesmo que andasse qualquer distância. Lembro que um dia andei muito e não cheguei lá. Era muito longe. Tive que voltar e desistir. Nunca fui muito persistente e já que ele estava ali sempre, pra mim bastava. Confiava muito em Elza e não havia outro caminho afinal, ela sempre guardava e depois trazia o horizonte de volta, assim acreditava eu. Acho que devia ser por isso aquele cheiro de rosa em volta da minha casa. Devia ser do perfume que Elza passara entre os seios que acabou aderindo ao horizonte. Ele tinha o perfume de Elza. Muito agradável. Coitada... Só assim pra me fazer dormir e se livrar por algumas horas das minhas perguntas difíceis de responder. Elza nunca se negou a tentar responder alguma, muito pelo contrário, sempre respondeu todas. Coisas do tipo: “Por que as formigas fazem questão de se manter organizadas aqui fora se nenhum de nós dois consegue entrar no formigueiro?” Pra tudo havia uma paciente resposta. Nunca fiquei sem resposta porque as perguntas, segundo ela, eram difíceis de responder, mas havia resposta. Hoje tento cumprir todas as promessas que faço a Elza, tento atender todos os pedidos dela. O que mais me consome é que de todos, fui incompetente no mais fácil: continuar acreditando que ela guardava o horizonte dentro de seu sutiã. Não sei por que a traí e não consigo mais acreditar nessa história mesmo sabendo que ele é a mais pura verdade.

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