quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Richard Eugene Hickock possui uma inteligência acima do normal, aprende com facilidades novas ideias e possui vasto cabedal de informações. É uma pessoa alerta para os acontecimentos em torno de si e não mostra sinais de confusão mental e desorientação. Pensa organizadamente e com lógica e parece travar bom contato com a realidade. Embora eu não tenha encontrado os sinais usuais de danos orgânicos ao cérebro – perda de memória, formação de conceito concreto, deterioração intelectual – a hipótese não pode ser deixada completamente de lado. Teve sérios sofrimentos na cabeça e concussões com várias horas de inconsciência, em 1950 – fato verificado por mim nos arquivos dos hospitais. Disse que tem crises de perda de consciência, períodos de amnésia e dores de cabeça desde aquele tempo, e grande parte de seu comportamento anti-social ocorreu nessa época. Nunca realizou os testes médicos que provariam definitivamente se existem ou não restos de danos cerebrais. Testes médicos definitivos são indicados antes que uma avaliação completa possa ser feita... Hickock mostra sinais de anormalidade emocional. O fato de saber o que estava fazendo e continuar a fazê-lo é possivelmente a demonstração mais clara. É impulsivo em suas ações, capaz de agir sem pensar nas consequências ou no desconforto futuro para si ou para os outros. Não parece capaz de aprender com a experiência, mostra um padrão inusitado de períodos intermitentes de atividade produtora seguida de ações nitidamente irresponsáveis. Não tolera os sentimentos de frustrações da mesma maneira que uma pessoa mais normal consegue, e tem grande dificuldade de libertar-se desses sentimentos, a não ser através da atividade anti-social... Secretamente subestima-se a si próprio, sente-se inferior aos outros e sexualmente inadequado. Esses pensamentos parecem supercompensados através de sonhos de riqueza e poder, tendência a se gabar de suas conquistas, gastar dinheiro a rodo quanto tem, e uma insatisfação com o progresso lento e normal que poderia esperar de um emprego... Sente desconforto nas relações com os outros e uma inabilidade patológica de formar e manter ligações pessoais. Embora alegue padrões morais, ele parece não se influenciar por eles em suas ações. Resumindo: apresenta características típicas do que em psiquiatria se poderia chamar de caráter seriamente tumultuado. É importante que se tomem medidas para eliminar a possibilidade de danos orgânicos, cerebrais, uma vez que, presentes, poderiam ter influenciado substancialmente seu comportamento durante os últimos anos e na época em que o crime foi cometido.
Truman Capote em A Sangue Frio
Perry Smith mostra sinais evidentes de uma séria perturbação mental. Sua infância, conforme ele me relatou, e eu verifiquei nos arquivos da prisão, foi marcada pela brutalidade e pelo pouco caso de ambos os pais. Parece ter crescido sem diretriz, sem amor e sem jamais ter absorvido qualquer noção fixa de valores morais... É uma pessoa orientada, super alerta para as coisas que se passam à sua volta e não mostra sinais de confusão. Possui inteligência acima do comum, dispõe de uma boa quantidade de informações, considerando seu baixo nível de instrução... Duas características de sua personalidade sobressaem como particularmente patológicas. Primeiro: sua orientação paranóide quanto ao mundo; suspeita e desconfiança de todos, tende a se sentir discriminado pelos outros e sente que são injustos e não o compreendem. É excessivamente sensível à críticas e não tolera que riam dele. Sente logo desprezo ou insulto no que os outros dizem e frequentemente interpreta mal as observações bem intencionadas. Sente grande necessidade de amizade e compreensão, mas reluta em confiar nos outros e, quando o faz, espera ser mal entendido ou mesmo traído. Ao avaliar a intenção e os sentimentos dos outros, sua capacidade de separar a situação real de suas próprias projeções mentais é bastante pobre. Quase sempre generaliza todas as pessoas como hipócritas, hostis e merecedoras de tudo que fizer a elas. Semelhante a este primeiro traço está o segundo: um ódio sempre presente, difícil de controlar e facilmente detonado quando se sente enganado, menosprezado ou julgado inferior pelos outros. Em grande parte, seus ódios, no passado, foram dirigidos às imagens de autoridade – pai, irmão, sargento, encarregado de livramento condicional – e levaram-no várias vezes ao comportamento violento. Tanto ele quanto seus conhecidos sabem desses ódios que, segundo ele, “crescem no seu íntimo” e também do seu péssimo controle sobre ele. Quando dirigido a si mesmo, esse ódio toma a forma de suicídio. A força desproporcionada de sua ira e sua incapacidade de controlá-la ou canalizá-la refletem fraqueza primária da estrutura da sua personalidade... Além desses traços, o indivíduo demonstra ligeiros sinais precoces de desordem na maneira de pensar. Tem dificuldade em organizar o pensamento, não consegue esquadrinhá-lo ou sintetizá-lo, envolvendo-se demasiado e às vezes perdendo-se em detalhes. Alguns de seus pensamentos refletem uma qualidade “mágica”, um descaso da realidade... Teve poucas relações emocionais com os outros, as quais foram incapazes de vencer pequenas crises... Excetuando um pequeno círculo de amigos, não tem sentimentos para com os outros e dá pouco valor à vida humana. Este desprendimento emocional e a sua frouxidão em algumas áreas provam sua anormalidade mental. Seria necessário um exame mais extenso para um diagnóstico psiquiátrico preciso, mas a estrutura atual de sua personalidade é muito aproximada da reação de um paranóico esquizofrênico.
Truman Capote em A Sangue Frio
Tentando determinar a responsabilidade criminal dos assassinos, a lei tenta dividi-los, bem como a todos os transgressores, em dois grupos: os “sãos” e os “insanos”. O chamado assassino “são” é tido como aquele que age segundo motivos racionais que possam ser compreendidos, embora condenados; e o “insano”, como o levado por motivos irracionais e absurdos. Quando os motivos racionais são conspícuos (por exemplo, quando um homem mata por lucro pessoal), ou quando os motivos irracionais se fazem acompanhar por decepções ou alucinações (por exemplo, um paciente paranóico que mata aquele que sua fantasia transformou emperseguidor0, a situação apresenta poucos problemas para o psiquiatra. Mas o assassinos que parecem racionais, coerentes e controlados, e, no entanto, cujos atos homicidas possuem uma qualidade bizarra e aparentemente sem sentido, constituem um problema difícil, se as divergências da Corte e os relatórios contraditórios acerca do mesmo transgressor são sintomáticos. Nossa tese é de que a psicopatologia desses assassinos forma ao menos uma síndrome específica que descreveremos. Esses indivíduos, em geral, possuem uma predisposição para lapsos no controle do seu ego – o que torna possível a expressão aberta de violência primitiva, gerada em experiências prévias e, agora, inconscientes e traumáticas. [...] Apesar da violência em suas vidas, todos tinham do seu próprio ego a seguinte imagem: eram fisicamente inferiores, fracos e inadequados. Cada um deles revelava um alto grau de inibição sexual. A todos eles as mulheres adultas pareciam criaturas ameaçadoras e, em dois casos, havia perversão sexual declarada. Todos, também, haviam temido em seus primeiros anos serem considerados “maricas”, fisicamente subdesenvolvidos ou doentios... Nos quatro casos havia prova histórica de estados alterados de consciência, frequentemente ligados a explosões de violência. Dois deles relataram graves estados dissociativos de inconsciência durante os quais se observa comportamento bizarro ou violento, enquanto os outros dois relataram episódios menos graves, talvez menos organizados, de amnésia. Durante os momentos de violência real, sentiam-se, em geral, separados ou isolados de si mesmos, como se estivessem observando outra pessoa... Notada também nos quatro casos a violência paterna na infância... Um deles declarou que “era chicoteado cada vez que dava as costas”. Outro disse que apanhava violentamente para corrigir sua gagueira e “ataques”, como também para castigar seu mau comportamento... A história relativa a extrema violência, fantasia ou não, observada na realidade, ou realmente vivida pela criança, casa-se com a hipótese psicanalítica de que a exposição da criança a estímulos esmagadores, antes que os possa controlar, está intimamente ligada a defeitos precoces na formação do ego e, mais tarde, a graves perturbações no controle dos impulsos. Em todos os casos, havia prova de extrema privação emocional nos primeiros anos de vida. Esta privação pode envolver a ausência prolongada ou recorrente do pai ou da mãe, ou de ambos, uma vida familiar caótico na qual os pais não eram conhecidos, ou uma rejeição frontal da criança pelo pai ou pela mãe, sendo a criança criada por outras pessoas... Prova de perturbações na organização afetiva foi notada. Mas, tipicamente, os homens demonstravam uma tendência a não experimentar ódio ou ira associados às ações agressivas de violência. Nenhum deles narrou sentimentos de raiva em conexão com os assassinatos, nem experimentou ódio pronunciado, embora cada um deles fosse capaz de agressão enorme e brutal... Suas relações com os outros era de natureza pobre e fria, devido à solidão e isolamento. Sentiam com pouca intensidade. As outras pessoas eram pouco reais para eles no sentido de um sentimento afetuoso ou mesmo de raiva... Os três homens aguardando a pena de morte demonstravam pouca emoção em relação à sua sorte e à de suas vítimas. Culpa, depressão e remorso, marcadamente ausentes... Tais indivíduos podem ser considerados como propensos ao assassinato no sentido de que carregam uma sobrecarga de energia agressiva ou que possuem um sistema instável de defesa do ego que permite periodicamente a expressão nua e arcaica de tal energia. O potencial assassino pode ser ativado especialmente se algum desequilíbrio se encontra presente, quando a futura vítima é inconscientemente percebida como figura-chave de alguma configuração traumática de seu passado. O comportamento, ou mesmo a simples presença desta figura, acrescenta uma tensão ao equilíbrio de forças que resulta numa súbita e extrema causa de violência, semelhante à explosão de uma espoleta numa carga de dinamite... a hipótese de motivação inconsciente porque os assassinos perceberam nas vítimas inócuas e relativamente desconhecidas provocações que as tornaram, portanto, alvos adequados de agressão. Mas por que assassiná-las? A maior parte das pessoas, felizmente, não revida com explosões assassinas, mesmo sob a mais extrema provocação. Os casos descritos, por outro lado, estavam dispostos a grandes lapsos no contato com a realidade e extrema fraqueza no controle de seus impulsos durante períodos de grande tensão e desorganização. Nestes períodos, um conhecido de vista ou mesmo um estranho facilmente perde seu significado “real” e assume uma identidade na configuração traumática inconsciente. O “velho” conflito se reativou e a agressão cresceu rapidamente até atingir proporções assassinas... Quando estes assassinatos sem sentido ocorrem, parecem o resultado final de um período de tensão crescente e desorganização no assassino, começando antes do contato com a vítima que, por ajustar-se aos conflitos inconscientes do assassino, serve, sem o desejar nem saber, para pôr em ação seu potencial homicida.
Truman Capote em A Sangue Frio
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Mais um dos depoimentos apaixonados.
Entre 17h30 e 18h. Segunda-feira. O começo, embora seja o segundo. A reverência aos deuses determinando sua origem em outras línguas. Estamos em um avião da GOL indo para Porto Alegre com o espetáculo "Sua Incelença, Ricardo III" depois de uma semana especial no Rio de Janeiro.
Como já falei aqui, participamos do Projeto de Ocupação de Espaço Público do Tempo Festival 2011 no Morro do Adeus no Complexo do Alemão. Tudo foi muito especial e transformador.
O avião levanta vôo e me mostra um Rio de Janeiro lindo porque resiginificado. Uma ilhota no meio da água. Casas, habitação, embora isolados. A ponte Rio-Niterói liga um povo ao outro, promove encontros de gentes da mesma raça e matéria. As nuvens, finas e cortantes como camadas de gelo afiadas, rasgam o céu e o transformam, o modificam.
Estivemos em um lugar onde "os ares já estão mudados". Habitando, encontrando, transformando, modificando, sendo transformado, sendo modificado.
Os três dias de contato com jovens da comunidade em uma oficina foram fortalecedores para nosso ofício e nosso viver. Conhecer o típico "cara-gente-boa" Léo, morador da comunidade das Grotas, uma das mais perigosas do Complexo antes da ocupação, fazedor de teatro, inteiramente disponível ao teatro, não teve preço. Amar o sorriso de Ruth, integrante do coral do Casarão da Cultura, era delicioso. Ser acolhido pela prestatividade de Luciano, agitador cultural da comunidade, era confortante. Se divertir com o jeito galado-come-quieto de Jonas era muito gostoso. Saber que poderíamos contar com a total disponibilidade de Jéssica e Diogo era extremamente satisfatório. No fim dessa primeira parte ver Stefany, uma jovem tímida que chegou a partir do segundo dia com os olhos brilhando por conta da vontade de fazer a oficina, mas receosa se poderia ou não por ter perdido o primeiro dia, dizendo que a palavra que resumia a oficina para ela era "família" não teve preço e pagou por tudo.
No fim de semana subimos o Morro do Adeus para brincar com quem quisesse aparecer. E brincamos! Muito! É muito bom colocar o teatro na roda dos outros e deixar os donos da roda completamente à vontade com o carnaval, com a brincadeira. "Vem pra cá! Tá ótimo!" grita a senhora no meio da arquibancada em plena apresentação. Sem contar que era linda demais aquela vista, o pôr-do-dol no fundo, depois as luzes da cidade...
Nos emocionamos também. Muito! Muito especial ver a cidade inteira lá embaixo como quem quer e precisa subir pra estar junto da gente na festa, no carnaval, no compartilhamento, na troca de material humano que é o acontecimento teatral. O caminho se fez inverso. Subimos. Subiram.
Fernando Yamamoto falou: Aos amigos do Rio, que larguem seus preconceitos pequeno-burgueses de lado e venham não só nos assistir neste cenário maravilhoso, como também conhecer mais de perto a realidade do Alemão, que apesar de ter violência (como em todo lugar), tem também pessoas maravilhosas e um público muito caloroso!
João Braune completou: O Rio nunca mudará enquanto as pessoas ficarem em casa vendo TV no sofá. Quem foi ontem ao espetáculo do Clowns no Alemão teve a oportunidade de fazer um passeio maravilhoso com direito a vista cinematográfica e um espetáculo imperdível ao por do sol! Vamos lá mulambada, o Alemão é logo ali! A distância é muito mais psicológica do que geográfica!
Mona Magalhães confirmou: Queridos Clowns de Shakespeare, parabéns pelo "Sua Incelença Ricardo III". Lindo trabalho. Obrigada por terem me levado ao morro do Adeus e presenciar vários belos espetáculos: o passeio de teleférico, a vista do Rio de Janeiro, o por do sol e claro, o belo trabalho de vocês!!!! Beijos e abraços gerais!!!!
É por aí: reavaliar, tentar e concretizar, certificar. É assim que damos sentido à vida. Ela precisa de um.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011


terça-feira, 13 de setembro de 2011
Complexo?
Estamos no Rio de Janeiro para participar da segunda edição do Tempo Festival. Esta cidade é mundialmente conhecida. Por vários motivos: as belezas naturais, o povo hospitaleiro, o imenso show que é seu carnaval de escolas de samba e de rua, pelo imenso tráfico de drogas e pelo alto índice de violência.
Estes dois últimos tópicos podem ser encontrados em inúmeros lugares da cidade (do país também), mas mais ainda nos morros e favelas que a circundam. Ano passado a situação chegou a um ponto tão crítico que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com apoio da Marinha do Brasil, fez uma operação especial. Uma frente formada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, a Polícia Federal, a Polícia Civil e as Forças Armadas foi criada para pacificar a cidade. No dia 26 de novembro de 2010 colocaram a operação em prática. O lugar escolhido: o Complexo do Alemão.
Este complexo é formado por 13 (treze) favelas da Zona Norte da cidade, dentre elas o Morro do Adeus (nome muito sugestivo). Em novembro do ano passado o Complexo e o Morro estiveram nas principais manchetes do mundo por conta da ação pacificadora. Os soldados invadiram 11 (onze) das favelas entrando em guerra com os traficantes e o resultado foram traficantes expulsos, drogas apreendidas e incineradas, população apoiando, feliz, tranquila. Era inacreditável ver as cenas pela televisão. Parecia coisa de filme e isso tudo fica no imaginário de qualquer um.
A produção do festival resolveu criar o Projeto Ocupação para esta edição do evento e convidou os Clowns de Shakespeare para fazerem duas apresentações do espetáculo "Sua Incelença, Ricardo III" no Morro do Adeus e ministrar uma oficina para a comunidade. As apresentações serão realizadas no alto do Morro onde fica a estação de teleférico que serve de transporte entre as favelas para a população. Lá funcionava um dos “microondas” (lugar onde traficantes aniquilavam inimigos de forma brutal e violenta) do Complexo. Este mesmo solo dará espaço ao teatro... É genial imaginar isso, vislumbrar essa possibilidade, dimensionar as potencialidades de um acontecimento desses. Será uma oportunidade de levar o festival e produtos culturais para a Zona Norte da cidade, para a grande periferia, para a grande maioria que não tem acesso a esses produtos e ao festival. Inacreditável! Magnífico! Estávamos todos ansiosos por isso. Seria uma oportunidade única.
Mais uma vez as manchetes. Alguns dias atrás começaram novamente conflitos no Complexo do Alemão. Mais precisamente no Morro do Adeus, uma das duas favelas do Complexo que não havia sido pacificada. Não vou negar que fiquei extremamente apreensivo. Todo o imaginário que foi construído não parava de saltar-me os pensamentos. O medo era muito grande. Sabíamos que a mídia não toma conta de tudo, que ela recorta a situação, que a produção do evento jamais colocaria nossas vidas em risco, que se não fosse possível realizar as atividades previstas haveria uma outra solução, mas mesmo assim nos preocupamos muito e, assim, fomos deixando os dias passarem achando que seríamos transferido para algum lugar. Não fomos. Chegamos curiosos, perguntando aos membros da produção como estava tudo e a resposta foi: “está tudo bem”, “estivemos lá”, “está tudo em ordem”. O Exército passou a ocupar essas favelas que faltavam e a situação estava controlada. Era acreditar e ir.
Escrevo esse post depois de nosso primeiro dia no Complexo do Alemão. Estou bem. Vivo. Viva! Dá pra saber que a coisa é, pelo menos, diferente. E como é. Bem diferente. Chegamos às 09h de hoje no Casarão da Cultura, uma casa antiga do século XVIII (alguns acham que isso é exagero e que a casa é do século XIX) com muitas marcas de bala nas paredes por conta dos conflitos no ano passado. A construção é uma das primeiras da região e hoje abriga esse espaço cultural. Aulas de diversas linguagens artísticas acontecem lá. Dança, canto coral, teatro, orquestra de música, além de reforço escolar, etc. Nosso primeiro dia de oficina foi maravilhoso. Nunca encontrei com caras, mãos, corpos e falas tão sedentos, tão disponíveis. Depois da pacificação as crianças e os adolescentes da comunidade precisavam ser ocupados. Caso contrário o tráfico poderia ocupá-los mais uma vez. Inúmeros projetos sociais apareceram. Eles... Sempre os questionei, olhei meio torto. Aqui eles são vitais. Funcionam. Tem muito solo fértil para isso.
É emocionante vê-los falar de suas realidades que não teremos noção nunca do que é. Nem de perto. Não temos o referencial de não termos um equipamento cultural, por pior que seja, em volta. As oportunidades (palavra muito repetida hoje na boca de cada um) precisam urgentemente serem oferecidas. Lá cada um “faz o que se oferece” como disse Luciano, um jovem morador do Complexo que já tinha sido de cabeleireiro a mecânico de carros ao falar de suas experiências profissionais. É só uma questão de oportunidade. Isso é concreto ao vê-los fazendo os exercícios.
Talvez eu esteja fazendo um discurso extremamente demagógico, apaixonado e emocionado para uma leitura superficial de um blog. Se eu tivesse lendo isso teria essa certeza. Sempre as tive. Idiota! Só se pode ter certeza sobre o seu umbigo. Nada mais. Entender o que se passa num lugar como esses é gigantesco. Nos faz entender que autoridade pra se falar de um assunto não é dada nos livros, mas na vivência.
Enfim, estou muito feliz, emocionado, orgulhoso, satisfeito e ansioso. Quero mais. Com certeza serão momentos de muito aprendizado. Amanhã e depois continuamos nossa oficina. No fim de semana duas apresentações para a comunidade. Muitos dos participantes e, certamente, muitos dos espectadores verão e ocuparão minutos de suas vidas com a coisa mais incrível da face da terra: a apreciação artística (mais especificamente o Teatro!). Viva!!!
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O silêncio dos espaços
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Simona Talma me mata!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Quando se é pequeno e vai-se à praia cedo (geralmente ia acompanhado de minha tia. Era delicioso) brinca-se muito, esforça-se e gasta tudo que se tem que gastar de reservas energéticas no corpo. Era assim comigo. Quando chegava em casa estava morto e meu corpo não tinha vontade própria. Era meio que zumbi. Uma ressaca. Mas estava feliz demais. Aquela molezinha no corpo era muito gostosa. Ficava assim o dia todo.
A mente está meio ressaqueada hoje ao acordar. É claro que a espera no aeroporto, a volta pro hotel, a remarcação da viagem pra cinco horas depois do previsto, a chateação, a discussão, a raiva e o cansaço contribuíram. Mas é tudo maior. É meio que anestesia. Estou em órbita com tanta coisa na cabeça.
A semana do Programa Rumos Teatro do Itaú Cultural terminou no sábado passado e hoje me sinto assim. Foi muito potente viver aquilo. Pra quem é de grupo sabe do que estou falando e da força disso. Ver os pares, os encontros, os reconhecimentos dentro disso é forte demais. Nos identificamos, rimos, choramos, alegramos, lamentamos, somos.
A sensação do hidratante gelado nas costas no fim do dia e as lembranças daquele dia de praia estão aqui até hoje. O fato de termos apresentado um resultado no final não nos diz que tudo terminou. Acho que tudo começa agora. Tudo ainda vai nascer! Os ciclos não fecharam. Começaram.
domingo, 4 de setembro de 2011
Quando você olha da janela do avião durante um vôo noturno e vê aquela mancha iluminada, formada em sua imensidão por pequenos pontos que, por sua vez, formam um corpo maior e disforme no meio do breu você para e pensa: "Olha só, cidade tal é deste tamanho". Elocubra. Identifica. Dimensiona.
Mentira.
Aquela cidade não é só aquilo. No meio da mancha-mercúrio há pequenos pontos apagados, mas existentes. Invisíveis àqueles momentos, pelo menos. Nas bordas ainda há mais pontos. As fronteiras são borradas como a auréola da luz. Ainda há pontos, massa de cidade que continuam, se diluem. Alguns foram dormir. Outros se juntaram a outro pequeno ponto de luz e, por essa demanda de mais presença estão mais fortes, etc.
Enfim, nem de longe o que lhe causa a primeira impressão lhe será. Em nenhuma situação. O não aprofundamento é medo ou burrice.
É assim quando se conhece uma pessoa também. Só bater os olhos não diz quase nada. O prazer da descoberta é vital. Amadurece. A si, ao outro, aos dois.
