Tentando determinar a responsabilidade criminal dos assassinos, a lei tenta dividi-los, bem como a todos os transgressores, em dois grupos: os “sãos” e os “insanos”. O chamado assassino “são” é tido como aquele que age segundo motivos racionais que possam ser compreendidos, embora condenados; e o “insano”, como o levado por motivos irracionais e absurdos. Quando os motivos racionais são conspícuos (por exemplo, quando um homem mata por lucro pessoal), ou quando os motivos irracionais se fazem acompanhar por decepções ou alucinações (por exemplo, um paciente paranóico que mata aquele que sua fantasia transformou emperseguidor0, a situação apresenta poucos problemas para o psiquiatra. Mas o assassinos que parecem racionais, coerentes e controlados, e, no entanto, cujos atos homicidas possuem uma qualidade bizarra e aparentemente sem sentido, constituem um problema difícil, se as divergências da Corte e os relatórios contraditórios acerca do mesmo transgressor são sintomáticos. Nossa tese é de que a psicopatologia desses assassinos forma ao menos uma síndrome específica que descreveremos. Esses indivíduos, em geral, possuem uma predisposição para lapsos no controle do seu ego – o que torna possível a expressão aberta de violência primitiva, gerada em experiências prévias e, agora, inconscientes e traumáticas. [...] Apesar da violência em suas vidas, todos tinham do seu próprio ego a seguinte imagem: eram fisicamente inferiores, fracos e inadequados. Cada um deles revelava um alto grau de inibição sexual. A todos eles as mulheres adultas pareciam criaturas ameaçadoras e, em dois casos, havia perversão sexual declarada. Todos, também, haviam temido em seus primeiros anos serem considerados “maricas”, fisicamente subdesenvolvidos ou doentios... Nos quatro casos havia prova histórica de estados alterados de consciência, frequentemente ligados a explosões de violência. Dois deles relataram graves estados dissociativos de inconsciência durante os quais se observa comportamento bizarro ou violento, enquanto os outros dois relataram episódios menos graves, talvez menos organizados, de amnésia. Durante os momentos de violência real, sentiam-se, em geral, separados ou isolados de si mesmos, como se estivessem observando outra pessoa... Notada também nos quatro casos a violência paterna na infância... Um deles declarou que “era chicoteado cada vez que dava as costas”. Outro disse que apanhava violentamente para corrigir sua gagueira e “ataques”, como também para castigar seu mau comportamento... A história relativa a extrema violência, fantasia ou não, observada na realidade, ou realmente vivida pela criança, casa-se com a hipótese psicanalítica de que a exposição da criança a estímulos esmagadores, antes que os possa controlar, está intimamente ligada a defeitos precoces na formação do ego e, mais tarde, a graves perturbações no controle dos impulsos. Em todos os casos, havia prova de extrema privação emocional nos primeiros anos de vida. Esta privação pode envolver a ausência prolongada ou recorrente do pai ou da mãe, ou de ambos, uma vida familiar caótico na qual os pais não eram conhecidos, ou uma rejeição frontal da criança pelo pai ou pela mãe, sendo a criança criada por outras pessoas... Prova de perturbações na organização afetiva foi notada. Mas, tipicamente, os homens demonstravam uma tendência a não experimentar ódio ou ira associados às ações agressivas de violência. Nenhum deles narrou sentimentos de raiva em conexão com os assassinatos, nem experimentou ódio pronunciado, embora cada um deles fosse capaz de agressão enorme e brutal... Suas relações com os outros era de natureza pobre e fria, devido à solidão e isolamento. Sentiam com pouca intensidade. As outras pessoas eram pouco reais para eles no sentido de um sentimento afetuoso ou mesmo de raiva... Os três homens aguardando a pena de morte demonstravam pouca emoção em relação à sua sorte e à de suas vítimas. Culpa, depressão e remorso, marcadamente ausentes... Tais indivíduos podem ser considerados como propensos ao assassinato no sentido de que carregam uma sobrecarga de energia agressiva ou que possuem um sistema instável de defesa do ego que permite periodicamente a expressão nua e arcaica de tal energia. O potencial assassino pode ser ativado especialmente se algum desequilíbrio se encontra presente, quando a futura vítima é inconscientemente percebida como figura-chave de alguma configuração traumática de seu passado. O comportamento, ou mesmo a simples presença desta figura, acrescenta uma tensão ao equilíbrio de forças que resulta numa súbita e extrema causa de violência, semelhante à explosão de uma espoleta numa carga de dinamite... a hipótese de motivação inconsciente porque os assassinos perceberam nas vítimas inócuas e relativamente desconhecidas provocações que as tornaram, portanto, alvos adequados de agressão. Mas por que assassiná-las? A maior parte das pessoas, felizmente, não revida com explosões assassinas, mesmo sob a mais extrema provocação. Os casos descritos, por outro lado, estavam dispostos a grandes lapsos no contato com a realidade e extrema fraqueza no controle de seus impulsos durante períodos de grande tensão e desorganização. Nestes períodos, um conhecido de vista ou mesmo um estranho facilmente perde seu significado “real” e assume uma identidade na configuração traumática inconsciente. O “velho” conflito se reativou e a agressão cresceu rapidamente até atingir proporções assassinas... Quando estes assassinatos sem sentido ocorrem, parecem o resultado final de um período de tensão crescente e desorganização no assassino, começando antes do contato com a vítima que, por ajustar-se aos conflitos inconscientes do assassino, serve, sem o desejar nem saber, para pôr em ação seu potencial homicida.
Truman Capote em A Sangue Frio
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