quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Perry Smith mostra sinais evidentes de uma séria perturbação mental. Sua infância, conforme ele me relatou, e eu verifiquei nos arquivos da prisão, foi marcada pela brutalidade e pelo pouco caso de ambos os pais. Parece ter crescido sem diretriz, sem amor e sem jamais ter absorvido qualquer noção fixa de valores morais... É uma pessoa orientada, super alerta para as coisas que se passam à sua volta e não mostra sinais de confusão. Possui inteligência acima do comum, dispõe de uma boa quantidade de informações, considerando seu baixo nível de instrução... Duas características de sua personalidade sobressaem como particularmente patológicas. Primeiro: sua orientação paranóide quanto ao mundo; suspeita e desconfiança de todos, tende a se sentir discriminado pelos outros e sente que são injustos e não o compreendem. É excessivamente sensível à críticas e não tolera que riam dele. Sente logo desprezo ou insulto no que os outros dizem e frequentemente interpreta mal as observações bem intencionadas. Sente grande necessidade de amizade e compreensão, mas reluta em confiar nos outros e, quando o faz, espera ser mal entendido ou mesmo traído. Ao avaliar a intenção e os sentimentos dos outros, sua capacidade de separar a situação real de suas próprias projeções mentais é bastante pobre. Quase sempre generaliza todas as pessoas como hipócritas, hostis e merecedoras de tudo que fizer a elas. Semelhante a este primeiro traço está o segundo: um ódio sempre presente, difícil de controlar e facilmente detonado quando se sente enganado, menosprezado ou julgado inferior pelos outros. Em grande parte, seus ódios, no passado, foram dirigidos às imagens de autoridade – pai, irmão, sargento, encarregado de livramento condicional – e levaram-no várias vezes ao comportamento violento. Tanto ele quanto seus conhecidos sabem desses ódios que, segundo ele, “crescem no seu íntimo” e também do seu péssimo controle sobre ele. Quando dirigido a si mesmo, esse ódio toma a forma de suicídio. A força desproporcionada de sua ira e sua incapacidade de controlá-la ou canalizá-la refletem fraqueza primária da estrutura da sua personalidade... Além desses traços, o indivíduo demonstra ligeiros sinais precoces de desordem na maneira de pensar. Tem dificuldade em organizar o pensamento, não consegue esquadrinhá-lo ou sintetizá-lo, envolvendo-se demasiado e às vezes perdendo-se em detalhes. Alguns de seus pensamentos refletem uma qualidade “mágica”, um descaso da realidade... Teve poucas relações emocionais com os outros, as quais foram incapazes de vencer pequenas crises... Excetuando um pequeno círculo de amigos, não tem sentimentos para com os outros e dá pouco valor à vida humana. Este desprendimento emocional e a sua frouxidão em algumas áreas provam sua anormalidade mental. Seria necessário um exame mais extenso para um diagnóstico psiquiátrico preciso, mas a estrutura atual de sua personalidade é muito aproximada da reação de um paranóico esquizofrênico.

Truman Capote em A Sangue Frio

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