quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Até ontem não tinha definição
Hoje virei verbete
Mundo veloz
Vida voraz

Domingos - Alexandre Nero

A coceira no olho era irritante. Levei a mão até ele para aliviá-la com os dedos. De raspão vejo um riscado na palma da minha mão. Era um ponto de interrogação. Grosso. Cheio. A mão para no meio do caminho. Esfrego. Não sai. No teclado do computador não existe mais o ponto de interrogação. Onde ele teria ido? Penso enquanto esfrego. Procuro enquanto esfrego. Não sai. Vou até a pia da área de serviços. Lavo. Não sai. Sabão. Não sai. Álcool. Não sai. Uma escova cai nos meus pés. Para pegá-la me abaixo. A cabeça bate na torneira. Uma dor fina e insuportável. Não dá pra esfregar a cabeça. A mão está cheia de sabão. O olho coça, cabeça dói e a interrogação não sai.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quero momentos de vida improváveis e imprevisíveis como as personagens e as cenas de "Bagdad Café".

Paciência - Lenine e Milton Nascimento

Deus mora nessas coisas, nesses lugares, na beleza, na simplicidade...


Não aprendi dizer adeus - Alexandre Nero

"Si no hay conmoción, queimaremos la question."

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Nunca

Nunca diga não pra mim
Eu não vou poder trabalhar, conversar, descansar sem o teu sim
Seja sempre assim
Por favor me dê um sinal
Um cartão postal, um aval dizendo assim
'Não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim
Entre o não e o sim, só me deixe quando o lado bom for menor do que o ruim'

Nunca se esconda assim
Eu não vou saber te falar, te explicar que eu também me assusto muito
Você nunca vê que eu sou só um menino destes tais
Que pensam demais
Logo mais, vou correr atrás de ti.

Não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim
Entre o não e o sim, só me deixe quando o lado bom for menor do que o ruim.


http://www.youtube.com/watch?v=LgZUmgu-Le4
Hoje choveu aqui
As gotas encheram baldes
O silêncio do barulho delas
Me pediu pra ficar calado
O dia passou
Eu não caminho de cabeça baixa por uma questão de baixa auto-estima. É o peso. O cansaço. Da vida. Da caminhada. As pernas me doem. Quem dera fossem só as pernas.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

-Já há palavras suas gravadas na minha mente. Já há palavras suas escritas nas paredes do meu quarto, mas quando você estará na minha vida?
-Se há isso tudo, eu já não estou?
-Essa é uma forma, eu sei, não a que eu quero.

sábado, 25 de fevereiro de 2012


"Eu escutei, Nicolai. Você me desculpe, mas o tom da sua voz, sem falar nas palavras, revelam uma insensibilidade, um egoísmo, uma frieza. Uma mulher vai morrer! E você é incapaz de amar. Fica passeando, dando conselhos, fazendo pose. Eu não sei me exprimir, não tenho o dom das palavras. Eu definitivamente não gosto de você." (Ivanov, de Tchekhov)

A impaciência também tem seus direitos!

Deus me perdoará. Não é esse o seu trabalho?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Gana

Tive que aguçar a audição
O barulho da chuva não me deixou mais
Ouvir os ruídos do labirinto
Quero desfrutar dos dois
Gravador | Patativa do Assaré

Gravador que estás gravando
aqui no nosso ambiente,
tu gravas a minha voz,
o meu verso, o meu repente
mas, gravador, tu não gravas
a dor que o meu peito sente.

Tu gravas em tuas fitas
com a maior perfeição
o timbre da minha voz
e a minha fraca expressão,
mas não gravas a dor
gravada em meu coração.

Gravador, tu és feliz,
e, ai de mim, o que esperar?
Bem pode ser desgravado
quem em tua fita está.
E a dor do meu coração
jamais se desgravará.
O carnaval do Recife é simplesmente maravilhoso. É claro, o Galo da Madrugada, os shows de naturezas diversas em vários pontos da cidade atendendo realmente a todos em qualquer faixa etária, classe social, gosto cultural, a possibilidade de curtir uma parada totalmente diferente, mas de mesmo prazer como é ir à Olinda, etc. isso tudo já faz dele um acontecimento incrível.

Mas é lá, e exatamente por estes motivos, que o carnaval é o carnaval mesmo. Esse momento institucionalizado por todos, permitido por todos como o reino da loucura, ou seja, do eu mesmo. É genial poder ver qualquer um sendo. Só vi isso lá. O verdadeiro espírito do carnaval. Faço planos de conhecer outros, mas quando começa, não consigo. Volto sempre. A saudade traz mesmo de volta pelo braço. E eu acho ruim...

Minha mãe conta que na sala de cirurgia para o meu parto, enquanto esperava, ouviu de longe um bloco passar. Acho isso de uma força poética incrível. Me sinto lisonjeado. Ai como eu amo o carnaval... Melhor ainda é saber que eu amo porque eu amo o povo. Mais digno ainda é saber que eu amo porque ele me chamou. Sou dele. Também.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012



Paradoxal, controverso. Para esse mundo coerente? Um louco. Metade da minha alma é feita de ilusão. Sonho com o dia da embriaguez causada pelo ácido da tua saliva. Me imagino beijando o sol que repousa no céu da tua boca. Vivo em fúria de Medéia da era moderna com toda sua volúpia e velocidade, mas com a fragilidade da poesia e de seu tempo. O tempo do sendo. Inútil!
As interrogações como finalização ainda são uma constante. Talvez inerente. Ainda é assim. A vontade de ainda não conseguiu se mostrar maior do que a realidade. Só se mostrar. Porque no fundo ela o é. Ainda há dúvidas. Não as quero mais.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

No meio dos universos que cada um é
Somos muito(s) para sermos identificados facilmente
Uma olhada de um, dois ou três segundos
Não vai dizer nada
Os jogos perigosos
Estão por detrás de óculos e jeans
Não é, poeta?
É preciso coragem
Há situações em que não é necessário
Educação e polimento
Sinceridade dói menos, às vezes
Mas exige coragem
Me deparo com vários
Continuo me achando mais interessante
A quem você pertence?
A conexão da internet cai frequentemente
Por enquanto ainda tenho forças para levantar
Até quando?
Ninguém enxerga
E não é numa luz baixa de boate que vão me ver
Às vezes o melhor de uma sala de exposições é o ar condicionado

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Foi Hamlet quem ofendeu Laertes? Hamlet, jamais;
Hamlet foi posto fora de si.
E como Hamlet fora de si ofendeu Laerte?
Não é Hamlet quem ofende e Hamlet o nega.
Quem ofendeu, então?
Sua Loucura!
E se é assim, Hamlet está na parte ofendida.
A loucura também é sua inimiga!

Shakespeare

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"Meu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo..."
Ser para uma pessoa o que eu quero que ela seja para mim é altruísmo ou desespero?
Indícios ou ilusão?
Sinais ou carência?
Eu não sei se eu me entendo muito bem. Mas tem umas experiências que tenho com algumas contemplações, apreciações artísticas que me deixam muito curioso. Parece que algumas coisas foram feitas pra mim, me entendem. Ora, se eu mesmo não me conheço, se eu não sei do que se trata, como posso ter certeza que aquilo que eu estou experimentando é a leitura perfeita que fazem de mim? De onde vem esse reconhecimento? É isso! É um reconhecimento. Acho que me reconheço em algumas coisas. Isso deve ser bom. Esse deve ser o primeiro passo pra ir se entendendo...

Falando nisso, mais uma do Leonilson, que parece me entender. Não sei. Mas me deixa curioso...




O insustentável preconceito do ser

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:
- Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem "farofa" no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar....

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os "Paraíba", que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a "Cabeça chata", outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:
-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:
"O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor".
"É ofensivo", diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão "pé na cozinha", para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.
O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

"Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra 'niger' para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
'Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe'...que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).

Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan 'black is beautiful'. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém".
Será que na era Obama vão inventar "Pé na Presidência", para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como "inofensivos" , mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

- A minha "criadagem" não entra pelo elevador social !
E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, "viado", maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:
- Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!
Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
- Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia ...
Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: "O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem". Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável. O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:
-Só podia ser mendigo!
No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:
-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos.

Rosana Jatobá - jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Há muito troquei de mal com (D)deus
Não tem problema, águas passadas
Por você, tudo
Peço perdão
Aprendo a rezar
É. Aprendo. Não sei mais
Falar com (E)ele
Mas como disse:
Por você, tudo
Quero você
Você que ainda não o sei,
mas nos sabemos
Quero você
Peço você
Se esse for o único jeito,
será por meio dele,
mas será
Será?

"Essa certeza só ocorre uma vez na vida."

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O teatro nos leva a lugares importantes, significativos, ricos. Lugares geográficos e lugares abstratos também. Tem sido assim desde sempre. Eu: um felizardo. Nunca fiz outra coisa na vida, nunca tive outra profissão. Esse é o meu ofício. Talvez seja um sinal do destino mesmo. Oxalá! Assim fica mais bonita ainda a história de amor que eu tenho com essa arte. E como em toda história de amor: dores e sabores. Enfim... Estava predestinado. Que felicidade! Que sorte! Sou um privilegiado.

O teatro me fez, me formou, me deu caráter, me deu norte, noção, senso, ensinamento, fôlego. Cada ato com ele, cada atitude perante essa magnitude te leva a coisas maiores. Ele é a mais pura roda da vida, cíclica, consequente.

Aceitei o convite para o espetáculo “Sua Incelença, Ricardo III” com os Clowns de Shakespeare e Gabriel Villela. Consequências? Várias. Enormes. Uma ação leva a uma reação. Cada palhinha movida gera alguma coisa de volta. Tive que reajustar muitas coisas na minha vida, assumir outras, me alegrar e me doer com algumas, ir a outros lugares com ele. Geográficos e abstratos.

Quando as qualidades se misturam é que você percebe o quão magnífico uma coisa pode ser. Há lugares que são geográficos e abstratos porque o que os envolve o é e apresenta esse lugar assim. O teatro me apresentou Santiago do Chile. A América Andina.

Sempre me referi aos países da América Andina como a América Latina. Como se eu não fizesse parte daquilo. É um erro absurdo! Mas não tinha como não ser. Essa escoliose que o Brasil tem é só o reflexo corporal da nossa atitude. Nos afastamos da “América Latina” e, no entanto, somos mais dela do que imaginamos. Somos muito parecidos. Em muitas coisas. Somos latinos! É maravilhoso descobrir, constatar isso. É melhor ainda fazê-lo através do teatro. Pela possibilidade prática e pela possibilidade subjetiva. É maravilhoso...

Estivemos com “Su Excelencia, Ricardo III” na edição de 2012 do Santiago a Mil, o festival mais importante da América Latina. As experiências foram inúmeras e maravilhosas. A chegada, o trabalho, os ensaios, as apresentações... No meio disso tudo ir se reconhecendo, revisitando um chão.

Nossa primeira apresentação no Santiago a Mil foi incrível. O público de Melipilla, uma cidade cerca de uma hora de Santiago, veio conosco bonito. A troca foi linda! Os agradecimentos de grupos de senhoras, jovens que se tornaram fãs, gente que se reconheceram também. Maravilhoso...

Em seguida fizemos duas apresentações em uma comuna chamada Puente Alto. O parque era lindo, a plateia inteligente, calorosa, sensível, divertida e entregue. É maravilhoso ouvir Marco gritar: “E viva a América Latina!!!!”, gritar um “Viva!” e sair dançando. Não sei explicar. Acho que tudo faz parte da sensação de reconhecimento. Por enquanto relatos. Ainda não dá...

Posteriormente fizemos apresentações bem difíceis no Parque La Castrina na comuna de San Joaquín. Muito aprendizado, exercício, crescimento. Ainda tinha mais pela frente!!! Durante essa semana tive experiências maravilhosas. Passar o dia com nosso querido Maurice Durozier e o maravilhoso bando do Thèâtre du Soleil, ajudá-los a preparar o espaço, sentir a sensação de estar preparando o terreno para entrar junto com eles, vê-los, ver tudo em função da arte, do teatro, da seriedade, do poder e da mágica que tudo isso tem foi maravilhoso. A visita à La Chascona é inspiradora. As cumbias de Patrício Cobarde são eletrizantes. Era sempre muito bom, uma mistura de embriaguez com total lucidez essa sensação de estar sempre se reconhecendo latino. Sem ser avisado. Por qualquer coisa.

Na semana seguinte Santiago seguiu plenamente a Mil! Tive a oportunidade de conferir uma exposição no Museo de la Memoria sobre o golpe militar chileno e a retomada da democracia. É tudo muito lindo, especial e doloroso. A dor é compartilhada, mas muito solitária também. No Brasil não temos noção do que a nossa ditadura representou. É tudo muito recente para que não saibamos e sintamos o que é isso. Essa ferida ainda está aberta, em chagas, sangrando. Em países muito menos desenvolvidos que o nosso as comissões da verdade já foram estabelecidas, uma satisfação foi dada e o povo já pode olhar pra trás, se reconhecer, se indignar. É como diz uma frase na exposição: "Para que nadie diga: Yo no sabía." Não precisamos olhar para a ferida incessantemente, mas precisamos saber que ela existiu. É uma questão de respeito e dívida. Me emocionei muito. Me doí muito pelo nosso povo, pelos nossos guerrilheiros, pela nossa história. Esquecida. Não contada.

Nos dias 16 e 17 fizemos apresentações do espetáculo na frente do Palacio la Moneda, sede do governo chileno. Uma arquibancada gigante e mais um tantão de gente sentada no chão formando um tapete caloroso, receptivo, responsivo, festivo e cúmplice. Foi muito significativo nos apresentarmos ali. Um PALCO! Imaginar a invasão americana àquele espaço e encenar uma guerra de poder em frente não tem preço. Fazendo o carnaval, então...

Posteriormente coroamos tudo: nos apresentamos no Museo de la Memória, onde há a exposição. Foi muito forte. Me emocionei, me doí, chorei. Algo precisa mover-se!

"Hay que atreverse a complicar!"

Os dias passaram... A mala pronta e nela, além da muda de roupa que veio e das garrafas de vinho que vão, vai a maravilhosa sensação de dever cumprido. Nada paga. Nossa participação na edição de 2012 do Santiago a Mil encerrou-se de uma forma incrível: uma apresentação belíssima em todos os sentidos na bela Valparaíso. Nada podia ser melhor. Público lindo, energia da roda potente, força, gana, vontade, felicidade!!!

De outras experiências não posso deixar de citar o explosivo show da banda La Conmoción. O que é aquilo??? 19 músicos e 1 performer podem gerar força motora pra o globo terrestre girar mais rápido. É gás. Se tem carnaval em Santiago, quem o faz é La Conmoción.

O melhor de tudo nas duas experiências citadas? Poder comprovar que o teatro é essencial.

E Santiago? Apesar dos "Não pode!" vai seguindo a Mil como toda a América Latina!

Um viva e um obrigado a nós, aos nossos companheiros de vida e de lida, ao Brasil, ao nosso continente, ao nosso povo!

E viva Latino-américa!!!

Em casa. Na casa Brasil. Dessa vez a melhor sensação não foi só a da volta. Foi a de voltar e saber que ainda estou na América Latina. Por incrível que pareça muita gente esquece ou não se dá conta...

"La espina dorsal del planeta es mi cordillera"


P.S. Por enquanto só o que dá: relatos.