quarta-feira, 29 de junho de 2011

Você é um homem de paixões exaltadas, um homem esfomeado que não sabe direito seu apetite, um homem profundamente frustrado tentando projetar seu individualismo contra um fundo de rígido conformismo. Você existe num semimundo suspenso entre duas superestruturas, uma de auto-expressão e outra de autodestruição. Você é forte, mas tem uma falha, e, a não ser que aprenda a controlá-la, a falha acabará mais forte que sua força e o derrotará. A falha? Reação emocional explosiva, desproporcional ao motivo. Por quê? Porque esta iria desarrazoada diante dos que estão felizes e satisfeitos - este desprezo cada vez maior pelas pessoas e o desejo de magoá-las? Está certo, você pensa que são tolas, que as despreza por sua moral, a felicidade delas é a origem da sua frustração e de seu ressentimento. Mas são horríveis inimigos que leva consigo: com o tempo tão destruidores como balas. Mas as balas, felizmente, matam suas vítimas. Esta outra bactéria, deixada envelhecer, não mata um homem mas deixa em seu rastro o casco de uma criatura arrasada e torcida. ainda há fogo em seu ser, mas o mantém vivo alimentando-o com os vermes do desprezo e do ódio, os bichos da terra. Pode acumular com o sucesso, mas não acumula sucessos, pois é seu próprio inimigo e não lhe é permitido desfrutar de suas conquistas.

Truman Capote em A Sangue Frio

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Você já me roubou tudo. Pode ir. Esse delírio me deixe, por favor. Faço questão de tê-lo. Acho que preciso.

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos namorados

Conhecia o amor só de ouvir falar. E pior: só uma forma de amor. Qual? O frio. O que se acostumou em ser amor.

Hoje, aqui, não teremos tempo para pensar mais profundamente sobre se isso existe ou não. Hoje, aqui, isso existe e é amor, pelo menos uma forma dele. Depois, em outros lugares, podemos nos debruçar, discutir, pensar sobre. Talvez tenha que apagar esse texto caso cheguemos à conclusão de que não existe o amor frio, que se acostuma, mas hoje, aqui, ele existe.

Conhecia o amor só de ouvir falar. E pior: só uma forma de amor. Qual? O frio. O que se acostumou em ser amor. O que acomodou e parou. Seus pais se amavam, se cuidavam, mas dessa forma, acomodada, parada, burocrática e protocolar. Foi assim que entendeu o amor. Seus tios também se tratavam assim entre si. Seus avós idem. Não havia demonstração, rompantes. Pra quê? Até então não tinha visto outra forma de expressão do amor e nem tinha tido experiências pessoais em que ele, o amor, se mostrasse de outra forma, corajoso, impetuoso, vivo. Já estava na casa dos 30 e ainda não tinha vivido nada perto disso. Era preocupante. Para mim, pelo menos, era. Para ele não. Ele não achava estranho. Claro! Não conhecia outras formas de amor, não sabia que existiam outras (melhores?) e, portanto, não achava que estivesse perdendo algo demais. O pior de tudo era não achar nada estranho, não sentir falta de alguma coisa. Mas assim o era. Pra completar, fazia aniversário no dia dos namorados, 12 de junho. Como todo bom geminiano adorava festas e nenhum de seus aniversários lhe passara em branco. A mãe preparava o bolo e os doces quando criança, mandara comprar tudo na sua adolescência e ele mesmo preparava algumas coisas quando adulto. O fato é que sempre foi comemorado. Foi isso também que lhe fez calcificar essa ideia de amor. O frio, o que se acostuma em ser amor. Na infância nada havia acontecido em relação a isso. Iam todos os amigos, ganhava presentes, brincavam e iam todos pra casa como convém ao roteiro de uma festa infantil. No auge de sua adolescência alguns amigos deixaram de ir a uma ou duas das edições da sua festa. Estavam de namorico e iam comemorar de outra forma aquele dia. Tudo começou a piorar na fase adulta. Piorar para mim, que percebo e sei como isso faz mal, porque para ele é tudo muito natural. "É assim que a vida é." Os amigos, agora adultos, namorando, não deixavam de ir às suas festas de aniversário. Pior: iam com suas namoradas ou namorados. O problema é que eles só apareciam quando aquele dia dos namorados não era o primeiro, segundo ou terceiro do casal. Apareciam quando o dia dos namorados era um dia a mais e a festa do nosso protagonista era um programinha a se fazer. A maneira como esses casais se comportava lembrava muito a maneira como todas as formas de amor se demonstravam ao redor dele. Frio. Que se acostumou. Ele nem estranhou. "É assim que a vida é".

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Da janela do ônibus vi um passarinho bem gordinho bicar a grama colhendo algumas migalhas pra comer. O ônibus estava parado e algumas pessoas saltaram dele. Parte dessas pessoas foram em direção ao passarinho. Ele voou, deu um rasante na frente de uma das mulheres que estava indo em sua direção. Foi lindo. A mulher não teve tempo pra perceber como foi bonito esse movimento. Eu segui feliz.

Dalva e Batata

Tenho passado dias muito felizes. Dalva e Batata me fazem muita companhia. Ouvem-me, cantam pra mim, dançam, giram, rodopiam, me fazem rir e chorar, me fazem me ver. Principalmente, me fazem não perceber uma angústia que me é característica. Não é uma característica latente, voraz, que salta aos olhos de todos que me vêem, mas uma característica inerente, comum, como a cor dos meus cabelos. É assim e pronto. Enfim, eles me fazem ter a sensação de que ela não existe, de que ela não me acompanha, me fazem passar despercebido por ela. Fazem-me esquecer a maior tragédia da humanidade: a morte. Não a morte que acontece, leva e acaba, mas a morte lenta e diária. Sim, porque a pessoa quando nasce vem zerada, como que eletrodoméstico tirado da caixa e desembalado do isopor. Vem prontinha, sem defeito nenhum, a pessoa, sem mácula. À medida que a gente vai vivendo a gente vai morrendo. A contagem é decrescente e não crescente como todos pensam. Todos os dias morremos um pouquinho. Quando ligamos e não atendem, quando olhamos e não nos vêem, quando damos tchau, quando partimos. Vamos morrendo. Depois nascemos novamente, mas antes morremos. Dia a dia. Pouco a pouco. Com cada coisa. Lembrei disso tudo agora. Senti isso tudo mais uma vez. Batata dormiu e Dalva se calou. Deve ser por isso. Quando eles estiverem ativos por aqui novamente eu serei mais feliz.