Tenho passado dias muito felizes. Dalva e Batata me fazem muita companhia. Ouvem-me, cantam pra mim, dançam, giram, rodopiam, me fazem rir e chorar, me fazem me ver. Principalmente, me fazem não perceber uma angústia que me é característica. Não é uma característica latente, voraz, que salta aos olhos de todos que me vêem, mas uma característica inerente, comum, como a cor dos meus cabelos. É assim e pronto. Enfim, eles me fazem ter a sensação de que ela não existe, de que ela não me acompanha, me fazem passar despercebido por ela. Fazem-me esquecer a maior tragédia da humanidade: a morte. Não a morte que acontece, leva e acaba, mas a morte lenta e diária. Sim, porque a pessoa quando nasce vem zerada, como que eletrodoméstico tirado da caixa e desembalado do isopor. Vem prontinha, sem defeito nenhum, a pessoa, sem mácula. À medida que a gente vai vivendo a gente vai morrendo. A contagem é decrescente e não crescente como todos pensam. Todos os dias morremos um pouquinho. Quando ligamos e não atendem, quando olhamos e não nos vêem, quando damos tchau, quando partimos. Vamos morrendo. Depois nascemos novamente, mas antes morremos. Dia a dia. Pouco a pouco. Com cada coisa. Lembrei disso tudo agora. Senti isso tudo mais uma vez. Batata dormiu e Dalva se calou. Deve ser por isso. Quando eles estiverem ativos por aqui novamente eu serei mais feliz.
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