terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Meu pai se chama sonho.
Minha mãe se chama morte.
Quase todos preferem meu pai.
Mas é minha mãe quem vem me tirar da festa me arrastando.
Lirinha

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ayabá

Era do tempo em que ainda se tomava banho de cuia. Não era tão antiga assim, talvez fosse mais contemporânea do que todos nós juntos. Já era do tempo da água encanada, das torneiras, dos chuveiros, elétricos inclusive. Era humilde, por isso esse tempo. Não tão humilde assim. A família tinha uma condição estável. Isso também não acrescenta dado algum. Poderia ter uma condição miserável durante toda a vida e não deixaria de ter uma condição estável visto que ela permaneceu miserável por toda a vida. Não era isso também. Cresceu, subiu na vida, um pouco, é claro, mas cresceu, subiu, mas não era disso que estava falando. Tenho que começar descrevendo. Era simples, tinha uma condição simples, daí os banhos de cuia. Não era interiorana, não, pelo contrário, era da capital, filha de pais nascidos na capital. A família era simples, não pobre. Terminaram a casa, mas não toda. Os encanamentos, principalmente. Entenderam os banhos de cuia? Nunca reclamou da vida...até porque tomar banho de cuia devia ser algo muito insignificante para incomodá-la e fazê-la reclamar da vida. O restante da família, avós, tios, tias, primas, etc., era mais estável que a sua. Viviam, relativamente, bem. Eram realmente, ela e os pais, os mais simples da família. Ela, na verdade, nunca percebeu isso, sim porque se tivesse percebido teria se incomodado, como não se incomodou, não percebeu. Claro que teria se incomodado. Tinha todos os motivos do mundo para isso. A começar pela prima mais velha. Um dia mais velha. Por um dia lhe roubou o título e títulos era algo muito importante naquela família, principalmente os títulos que apresentavam algo inédito. O primeiro neto, o primeiro filho, o primeiro filho casado, a primeira palavra...Ela não era a primeira neta. Tiraram-lhe a oportunidade de ser o centro das atenções. Sim, mas por um dia? Sim, por um dia. Títulos são títulos. E naquela família então. A mãe poderia amar o filho com todas as suas forças, mas se a primeira palavra do filho fosse "papá" o amor acabava instantaneamente, óbvio. E isso era completamente compreensível, afinal a primeira palavra não fora "mamá". Em compensação a criança ganharia o amor incondicional do pai. Não sei até hoje no que isso pode ser vantagem, mas era assim. Como se não bastasse o furto do título de "primeira neta" fazendo-a perder toda a atenção dos avós, a prima mais velha, a mesma larapia, teve que ir morar na companhia dos velhos. Seus pais trabalhavam muito, formavam um casal de negócios, e bem sucedidos negócios, resultado: "Larissa (só o nome já causa náuseas) vai morar com os avós, é o jeito". Pronto. Agora não teria mais nada vindo da parte dos avós. Já não era a primeira neta e ainda por cima a tal primeira neta tornara-se a filha adotada pelos avós, ou melhor, a primeira filha adotada pelos avós. E foi assim a vida toda. As atenções dos avós eram somente para Larissa. Em toda boa família de bajuladores ninguém ousa ir de confronto com as idéias dos velhos, assim Larissa tinha toda a atenção dos tios e primos também. Mesmo assim ela nunca reclamara de nada, pelo contrário, adorava Larissa, que não merecia, é claro, afinal era uma ladra! Mas que nada! Ela nem prestava atenção nisso tudo. Acho que era o único ser livre de inveja no mundo. Ah...aqueles banhos de cuia...eles podiam fazê-la despertar, mas eram insignificantes demais para ela. Estava feliz assim mesmo. Ou acostumada. Sobre isso não sei precisar. O fato é que era simples, tinha hábitos simples, era fácil agradá-la. Divertimento? Aos montes. Tudo a divertia, desde ouvir os pais fazerem a lista do supermercado e ficar observando como os dois se completavam até ouvir o chamado dos pequenos e endiabrados vizinhos para pularem, dançarem e rodarem na rua ainda de terra. Mas seu grande prazer era mesmo o terreiro de Mãe Nicinha. Não era religiosa, pelo menos não tinha a definição disso na mente. Seu divertimento no terreiro era se sentir uma deusa. Também não tinha esse entendimento, mas eu tenho que usar essas expressões pra ilustrar como ela se sentia, ou pelo menos como ela se fazia ver. Uma deusa. Adorava usar os vestidões, as anáguas, as rendas, os cetins vermelhos, amarelos. Azuis não. Os brincos, as pulseiras, os badulaques, os turbantes. Os pés descalços! Ah, os pés descalços. Esse era seu maior prazer dentro do seu maior divertimento. Sentia-se livre, integrada, parte de alguma coisa que ela não sabia explicar o que era. Nem sentia isso também, mas se fazia ver assim. Rodopiava, cantarolava, levantava o pó do terreiro com sua grande saia abobadada. Era lindo. Supremo. Foi lá, no terreiro, que conheceu João Cabral. Foi lá, no terreiro, que virou moça. Foi lá, no terreiro, que se casou com João Cabral. Foi lá, no terreiro, que deu adeus a Mãe Nicinha e de lá, do terreiro, se despediu. Foi pra longe, viveu tudo que a vida deu direito a viver. Não. Ela não se tornou milionária, não conheceu o mundo, não teve tudo que todas as moças comuns sonham ter. Ela só viveu o que a sua vida deu direito. Cada um vive o que sua própria vida dá direito. Ela viveu a dela. E lindamente. De forma serena, tranqüila, materna. Foi feliz. Sim. Foi feliz. Até o dia em que resolveu fazer uma visita a uma amiga de longa data que estava de volta à capital, uma dessas que a chamavam ao portão para brincar. Em dado momento, depois de muitos abraços, beijos, conversa, atualizações, pediu licença e foi ao banheiro. Dentro do banheiro havia um balde e do lado uma cuia. Lembrou de tudo. O famoso filme que passa na mente da gente quando estamos perto de morrer, sabe qual é? Pois é, o dela se antecipou. Tudo passou ali, naquela hora. Havia sido feliz até aquele momento. Depois dali, depois de lembrar de tudo, não conseguia mais ser feliz, não conseguia mais ser só feliz. Ela tinha a obrigação de ser imensamente feliz. E o fez.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Azul e Branco.


Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado

Só em saber que não posso mais

Reviver o meu passado

Eu vivia cheio de esperança

E de alegria, eu cantava, eu sorria

Mas hoje em dia eu não tenho mais

A alegria dos tempos atrás


Só melancolia os meus olhos trazem

Ai, quanta saudade a lembrança traz

Se houvesse retrocesso na idade

Eu não teria saudade

Da minha mocidade

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Íntimos estranhos


Ainda não se conheciam, mas pareciam que sentiam falta um do outro. Deve ser porque se completavam, sem mesmo saber um da existência do outro. Se conheceram e perceberam isso. Um conhecimento não tão apropriado, usual, de costume. Parecia que ainda haviam territórios desconhecidos, mas ao mesmo tempo se davam a oportunidade de não pensar muito um sobre o outro, de não perguntar muito um sobre o outro porque não sentiam essa necessidade, não precisavam porque era como se fossem velhos conhecidos. Parece que tudo que havia pra se dizer e conhecer já havia sido dito e conhecido. Não eram as tais almas gêmeas, até porque ambos já haviam se convencido de que isso é muita poesia pra vida real. Ambos acreditavam nas mesmas coisas, como o caso da alma gêmea, por exemplo, como se tivessem passado pelos mesmos lugares, convivido com as mesmas coisas, frequentado as mesmas escolas, aprendido as mesmas lições e formulado o mesmo caráter. Não se conheciam integralmente ainda. Nem fisicamente, vejam só. Mas já haviam se apaixonado, declarado amor eterno um ao outro, discutido, brigado, vertido lágrimas, reatado, passado dias juntos, tempos separados sem notícias, tudo isso sem se conhecerem ainda. Eram seres intimamente estranhos ou estranhamente íntimos, como preferir. Eles preferiam se defirnir como "reconhecíveis". É, desses que você sabe que existe, sabe que ele é parte de você, não o conhece ainda, mas quando o conhecer irão se reconhecer rapida e simultaneamente e, a partir daí, o único trabalho é constatar as coisas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009


-Ele se apaixona por coisas, por pessoas, por idéias, por lugares.
-Diga, ele é o próprio Cristo?
-Pra mim, talvez seja. Por exemplo, passei uma semana no Brasil sem nunca ter estado lá. Ele fez um filme lá. Quando voltou falou de samba uma semana inteira. O samba entrou na nossa vida.

***

Ser feliz é mais ou menos o que a gente procura.
Eu rio, eu canto e não me incomodo
Com quem inveja a alegria.
Mas se tem um samba sem tristeza
É um vinho que não dorme nem se apressa.
É um vinho que não dorme nem se apressa
Senão pelo samba que eu quero.

Fazer um samba sem tristeza é amar uma mulher apenas bonita. São as próprias palavras de Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, autor desta canção e, como ele mesmo dizia, o branco mais negro do Brasil. Eu, que sou talvez o francês mais brasileiro da França, quero lhes falar do meu amor pelo samba como um namorado que não ousa falar a quem ama fala a todos que encontra.

Conheço a quem o samba incomoda
Ou outros pra quem é só uma moda
Outros que o ouvem sem amá-lo.
Eu a amo e percorri o mundo
Procurando sua raiz vagabunda
Hoje, para achar o mais profundo
O samba é o que se deve cantar.

João Gilberto, Carlos Lira, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Baden Powel, que fez essa música e outras, recebam minhas saudações. Hoje quero beber até me embriagar para sonhar com todos aqueles que, graças a vocês, eu descobri e que fizeram do samba o que ele é. Saravá! Pixinguinha, Noel Rosa, Dolores Duran, Silvio Monteiro e tantos outros. E todos que estão surgindo. Edu Lobo e meus amigos que estão comigo hoje. Baden, é claro. Nico, Osvaldo, Picchi, Oscar, Nicolino, Milton. Saravá! Todos os que fizeram com que exista uma palavra que nunca mais poderei ouvir sem estremecer, uma palavra que sacode todo um povo quando o faz cantar, o mar e o céu: samba.

Me disseram que vinha da Bahia
Que tira seu ritmo e sua poesia
De séculos de dança e dor.
Mas seja qual for o sentimento que exprima
Ele é branco de formas e de rimas.
Ele é branco de formas e de rimas
E negro, bem negro em seu coração
Mas seja qual for o sentimento que exprima
Ele é branco de formas e de rimas.
Ele é branco de formas e de rimas
E negro, bem negro em seu coração.
E negro, bem negro em seu coração.
E negro, bem negro em seu coração.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Linha pontilhada

Dinheiro é um pedaço de papel.
Roupa é um pedaço de pano.
Durex é um pedaço de plástico.
Fotografia é um pedaço de tempo.

Sexo é um pedaço de céu.
Céu é um pedaço de inferno.
Inferno é um pedaço de mim.
Eu sou um pedaço dos outros.

Amor é um pedaço de mentira.
Verdade é um pedaço de utopia.
Palavra é um pedaço de necessidade.
Cúmplice é um pedaço de existência.

Família é um pedaço de espelho.
Arte é um pedaço de fuga.
Música é um pedaço de vinho.
Teatro é um pedaço de música.

Perfume é um pedaço de lembrança.
Lágrima é um pedaço de som.
Tempo é um pedaço de dor.
Amigo é um pedaço de ouvido.

Cor é um pedaço de janela.
Flor é um pedaço de cor.
Vento é um pedaço de liberdade.
Sol é um pedaço de gargalhada.

Trabalho é um pedaço de lugar.
Escola é um pedaço de açúcar.
Criança é um pedaço de sono.
Poesia é um pedaço de fim.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Como as coisas funcionam, funcionavam e vão funcionar.

Querido blog,

tentei de todos os jeitos analisar tudo que estava vivendo e, conseqüentemente, sentindo para fazer um apanhado geral disso tudo, ver de forma distanciada com uma beleza poética e, por fim, transformar tudo isso em poesia, óbvio. Não sendo tão pretensioso, transformar tudo isso pelo menos num texto bonito e com leves toques poéticos. Esse tem sido o meu mais recente anseio. Tentei fazer isso porque acho que deve ser assim que fazem os poetas. Não sou um, é claro. Prova disso é que teria conseguido fazer o texto da forma que falei antes. Enfim, não consegui. Como havia falado anteriormente, tentei de todas as formas e maneiras e não consegui. Isso não é só frustrante pra essa situação. É bem mais grave. É frustrante pra uma coisa bem maior e definitiva. Uma conclusão: Não sou realmente um poeta! (uma lágrima desce, ou melhor, começa a descer mas é interrompida pelos dedos do escritor). Nossa! Quase que o poeta vem agora. Piegas e da pior qualidade, mas quase que vem. Pois bem, já que tentei e não consegui e mesmo assim tenho que cumprir com a promessa que em um texto anterior a você. Lá vai a história mesmo assim. Será algo bem simples, sem poesia nenhuma, algo tal qual aconteceu, em todas as esferas, uma descrição pura, simples e seca. Cuspida. Os lugares serão os mesmos, nada de fantasia. As pessoas também, nada de personagens. É uma história verídica.

Um belo dia um grupo de teatro decide levar a coisa a sério. "Temos que levar nosso trabalho adiante! Vamos sair do estado, mostrar nosso trabalho pra um público diferente." Surge uma oportunidade e todo o grupo, cada um da sua forma, e seus valiosos colaboradores se mobilizam pra essa empreitada. Destino: São Paulo. Chegamos. Tudo parece maior, não caber em nossas mãos nem nos olhos. Não é só a cidade. É a situação. Angústia, um pouco de desespero, mas acima de tudo confiança. Observando um pouco a história desse grupo percebe-se que essa sensação é uma constante. Confiança. Sempre houve confiança. No trabalho, no outro, na relação estabelecida com o outro, na relação estabelecida com o trabalho. Mesmo quando os caminhos pareciam meio turvos a confiança estava na certeza de que tudo seria límpido de novo. E sempre era. Sempre tem sido. Confiantes, nos estabelecemos. E aí não tinha outra saída a não ser começar. Começar tudo. A fazer, aprender, errar, andar, conhecer, descobrir, ser. Fomos descobrindo coisas e coisas. Durante as apresentações cada um soube a posição e a postura do outro dentro do grupo. Cada um foi se apropriando do que já era seu e coisas novas foram surgindo a partir das novas apropriações. Um tesoureiro e uma secretária apareceram. Apropriação. Saber onde está, porque está e dizer que quer continuar. Continuar e fazer algo pelo que é meu. Apropriação. As características e personalidades de cada um foram brotando como que segredos, estréias, novidades. Era tudo muito novo. Descoberta. A convivência nos fez perceber algo que achávamos que não tínhamos mais o que saber: fomos descobrindo mais um pouco de cada um. Depois de muitas coisas reveladas não bastou descobrir, tivemos que conhecer. Conhecimento. É o estágio onde se dá o domínio. Eu já sei como lidar, eu conheço. Nos conhecemos mais e melhor hoje. O melhor de tudo nessa etapa foi perceber que não estávamos muito enganados a respeito do outro e que, quando estávamos, tudo só foi acrescido da melhor forma possível. A nova descoberta sobre o outro foi algo que só veio nos mostrar o melhor lado da convivência: eu sempre fico sabendo um pouco mais. Ficar sabendo um pouco mais é fenômeno dos mais invejáveis possíveis. Hoje sabemos onde podemos acertar e errar e onde o outro pode acertar e errar. Assim fica mais fácil de movimentar uma máquina com engrenagens tão sofisticadas: humanos. Nas andanças pudemos perceber até onde cada um pode ir e não só fisicamente. Alguns limites foram quebrados e o melhor de tudo, até dos que não foram, é que em todos houve uma tentativa. Ceder. Parece que não cabia um certo tipo de egoísmo e, se coube, ele foi ignorado por alguém que possa ter se sentido vítima dele. Nobreza. Em pequenas atitudes fomos conhecendo muito de cada um. Conhecendo muito de cada um dá pra ter uma noção do todo, da coletividade. Não tinha como dar errado. Parece que o que há em um, falta no outro e vice-versa, nos completamos. A rapidez de alguns é suspendida pela lentidão de outros. Parar e ver um de nós lá no começo de uma exposição enquanto os outros já estavam no final nos faz voltar e ver novamente a mesma exposição. O mais engraçado e revelador desse simples fato é que não é mais a mesma exposição. Ceder. Mais uma vez. Sempre. Ver alguém se disponibilizar pra alguma tarefa era coisa das mais corriqueiras possíveis, era simples, era natural, afinal alguém teria que fazer. Isso é mais que corriqueiro. É natural claro, mas é o puro funcionamento harmônico das coisas, das pessoas, da casa, do grupo, da máquina. Não sei se consigo citar mais exemplos, mais acontecimentos. Sei que consigo olhar pra tudo e ver o quanto de conhecimento foi adquirido em tudo que pudéssemos imaginar. Não tínhamos noção de nada. Repetíamos isso o tempo todo. Sabíamos o quanto toda a grandiosidade desse acontecimento iria ser importante no final de tudo. Esperávamos o balanço de tudo com muita ansiedade. Ainda não dá pra fazer um balanço. Muitas coisas só vão aparecer depois de muito tempo. Depois de mais tempo juntos, de mais convivência, de mais descoberta e aprendizado e assim ir adquirindo conhecimento de tudo, de si, do outro, dessa relação, do todo. Conhecimento. Da prévia desse ainda tão esperado balanço essa é a primeira conclusão e mais importante.

Enfim, entre muitos sorrisos e saudade voltamos maiores, crescidos, rapazes e moças. Sabemos quem somos, onde estamos e o que queremos. Somos Aline, Edivaldo, Fran, Joel, Levy e Márcio, somos o Teatro Máquina e estamos correndo atrás. E o melhor de tudo: juntos.