segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Como as coisas funcionam, funcionavam e vão funcionar.

Querido blog,

tentei de todos os jeitos analisar tudo que estava vivendo e, conseqüentemente, sentindo para fazer um apanhado geral disso tudo, ver de forma distanciada com uma beleza poética e, por fim, transformar tudo isso em poesia, óbvio. Não sendo tão pretensioso, transformar tudo isso pelo menos num texto bonito e com leves toques poéticos. Esse tem sido o meu mais recente anseio. Tentei fazer isso porque acho que deve ser assim que fazem os poetas. Não sou um, é claro. Prova disso é que teria conseguido fazer o texto da forma que falei antes. Enfim, não consegui. Como havia falado anteriormente, tentei de todas as formas e maneiras e não consegui. Isso não é só frustrante pra essa situação. É bem mais grave. É frustrante pra uma coisa bem maior e definitiva. Uma conclusão: Não sou realmente um poeta! (uma lágrima desce, ou melhor, começa a descer mas é interrompida pelos dedos do escritor). Nossa! Quase que o poeta vem agora. Piegas e da pior qualidade, mas quase que vem. Pois bem, já que tentei e não consegui e mesmo assim tenho que cumprir com a promessa que em um texto anterior a você. Lá vai a história mesmo assim. Será algo bem simples, sem poesia nenhuma, algo tal qual aconteceu, em todas as esferas, uma descrição pura, simples e seca. Cuspida. Os lugares serão os mesmos, nada de fantasia. As pessoas também, nada de personagens. É uma história verídica.

Um belo dia um grupo de teatro decide levar a coisa a sério. "Temos que levar nosso trabalho adiante! Vamos sair do estado, mostrar nosso trabalho pra um público diferente." Surge uma oportunidade e todo o grupo, cada um da sua forma, e seus valiosos colaboradores se mobilizam pra essa empreitada. Destino: São Paulo. Chegamos. Tudo parece maior, não caber em nossas mãos nem nos olhos. Não é só a cidade. É a situação. Angústia, um pouco de desespero, mas acima de tudo confiança. Observando um pouco a história desse grupo percebe-se que essa sensação é uma constante. Confiança. Sempre houve confiança. No trabalho, no outro, na relação estabelecida com o outro, na relação estabelecida com o trabalho. Mesmo quando os caminhos pareciam meio turvos a confiança estava na certeza de que tudo seria límpido de novo. E sempre era. Sempre tem sido. Confiantes, nos estabelecemos. E aí não tinha outra saída a não ser começar. Começar tudo. A fazer, aprender, errar, andar, conhecer, descobrir, ser. Fomos descobrindo coisas e coisas. Durante as apresentações cada um soube a posição e a postura do outro dentro do grupo. Cada um foi se apropriando do que já era seu e coisas novas foram surgindo a partir das novas apropriações. Um tesoureiro e uma secretária apareceram. Apropriação. Saber onde está, porque está e dizer que quer continuar. Continuar e fazer algo pelo que é meu. Apropriação. As características e personalidades de cada um foram brotando como que segredos, estréias, novidades. Era tudo muito novo. Descoberta. A convivência nos fez perceber algo que achávamos que não tínhamos mais o que saber: fomos descobrindo mais um pouco de cada um. Depois de muitas coisas reveladas não bastou descobrir, tivemos que conhecer. Conhecimento. É o estágio onde se dá o domínio. Eu já sei como lidar, eu conheço. Nos conhecemos mais e melhor hoje. O melhor de tudo nessa etapa foi perceber que não estávamos muito enganados a respeito do outro e que, quando estávamos, tudo só foi acrescido da melhor forma possível. A nova descoberta sobre o outro foi algo que só veio nos mostrar o melhor lado da convivência: eu sempre fico sabendo um pouco mais. Ficar sabendo um pouco mais é fenômeno dos mais invejáveis possíveis. Hoje sabemos onde podemos acertar e errar e onde o outro pode acertar e errar. Assim fica mais fácil de movimentar uma máquina com engrenagens tão sofisticadas: humanos. Nas andanças pudemos perceber até onde cada um pode ir e não só fisicamente. Alguns limites foram quebrados e o melhor de tudo, até dos que não foram, é que em todos houve uma tentativa. Ceder. Parece que não cabia um certo tipo de egoísmo e, se coube, ele foi ignorado por alguém que possa ter se sentido vítima dele. Nobreza. Em pequenas atitudes fomos conhecendo muito de cada um. Conhecendo muito de cada um dá pra ter uma noção do todo, da coletividade. Não tinha como dar errado. Parece que o que há em um, falta no outro e vice-versa, nos completamos. A rapidez de alguns é suspendida pela lentidão de outros. Parar e ver um de nós lá no começo de uma exposição enquanto os outros já estavam no final nos faz voltar e ver novamente a mesma exposição. O mais engraçado e revelador desse simples fato é que não é mais a mesma exposição. Ceder. Mais uma vez. Sempre. Ver alguém se disponibilizar pra alguma tarefa era coisa das mais corriqueiras possíveis, era simples, era natural, afinal alguém teria que fazer. Isso é mais que corriqueiro. É natural claro, mas é o puro funcionamento harmônico das coisas, das pessoas, da casa, do grupo, da máquina. Não sei se consigo citar mais exemplos, mais acontecimentos. Sei que consigo olhar pra tudo e ver o quanto de conhecimento foi adquirido em tudo que pudéssemos imaginar. Não tínhamos noção de nada. Repetíamos isso o tempo todo. Sabíamos o quanto toda a grandiosidade desse acontecimento iria ser importante no final de tudo. Esperávamos o balanço de tudo com muita ansiedade. Ainda não dá pra fazer um balanço. Muitas coisas só vão aparecer depois de muito tempo. Depois de mais tempo juntos, de mais convivência, de mais descoberta e aprendizado e assim ir adquirindo conhecimento de tudo, de si, do outro, dessa relação, do todo. Conhecimento. Da prévia desse ainda tão esperado balanço essa é a primeira conclusão e mais importante.

Enfim, entre muitos sorrisos e saudade voltamos maiores, crescidos, rapazes e moças. Sabemos quem somos, onde estamos e o que queremos. Somos Aline, Edivaldo, Fran, Joel, Levy e Márcio, somos o Teatro Máquina e estamos correndo atrás. E o melhor de tudo: juntos.

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