Conhecia o amor só de ouvir falar. E pior: só uma forma de amor. Qual? O frio. O que se acostumou em ser amor.
Hoje, aqui, não teremos tempo para pensar mais profundamente sobre se isso existe ou não. Hoje, aqui, isso existe e é amor, pelo menos uma forma dele. Depois, em outros lugares, podemos nos debruçar, discutir, pensar sobre. Talvez tenha que apagar esse texto caso cheguemos à conclusão de que não existe o amor frio, que se acostuma, mas hoje, aqui, ele existe.
Conhecia o amor só de ouvir falar. E pior: só uma forma de amor. Qual? O frio. O que se acostumou em ser amor. O que acomodou e parou. Seus pais se amavam, se cuidavam, mas dessa forma, acomodada, parada, burocrática e protocolar. Foi assim que entendeu o amor. Seus tios também se tratavam assim entre si. Seus avós idem. Não havia demonstração, rompantes. Pra quê? Até então não tinha visto outra forma de expressão do amor e nem tinha tido experiências pessoais em que ele, o amor, se mostrasse de outra forma, corajoso, impetuoso, vivo. Já estava na casa dos 30 e ainda não tinha vivido nada perto disso. Era preocupante. Para mim, pelo menos, era. Para ele não. Ele não achava estranho. Claro! Não conhecia outras formas de amor, não sabia que existiam outras (melhores?) e, portanto, não achava que estivesse perdendo algo demais. O pior de tudo era não achar nada estranho, não sentir falta de alguma coisa. Mas assim o era. Pra completar, fazia aniversário no dia dos namorados, 12 de junho. Como todo bom geminiano adorava festas e nenhum de seus aniversários lhe passara em branco. A mãe preparava o bolo e os doces quando criança, mandara comprar tudo na sua adolescência e ele mesmo preparava algumas coisas quando adulto. O fato é que sempre foi comemorado. Foi isso também que lhe fez calcificar essa ideia de amor. O frio, o que se acostuma em ser amor. Na infância nada havia acontecido em relação a isso. Iam todos os amigos, ganhava presentes, brincavam e iam todos pra casa como convém ao roteiro de uma festa infantil. No auge de sua adolescência alguns amigos deixaram de ir a uma ou duas das edições da sua festa. Estavam de namorico e iam comemorar de outra forma aquele dia. Tudo começou a piorar na fase adulta. Piorar para mim, que percebo e sei como isso faz mal, porque para ele é tudo muito natural. "É assim que a vida é." Os amigos, agora adultos, namorando, não deixavam de ir às suas festas de aniversário. Pior: iam com suas namoradas ou namorados. O problema é que eles só apareciam quando aquele dia dos namorados não era o primeiro, segundo ou terceiro do casal. Apareciam quando o dia dos namorados era um dia a mais e a festa do nosso protagonista era um programinha a se fazer. A maneira como esses casais se comportava lembrava muito a maneira como todas as formas de amor se demonstravam ao redor dele. Frio. Que se acostumou. Ele nem estranhou. "É assim que a vida é".
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