terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O teatro nos leva a lugares importantes, significativos, ricos. Lugares geográficos e lugares abstratos também. Tem sido assim desde sempre. Eu: um felizardo. Nunca fiz outra coisa na vida, nunca tive outra profissão. Esse é o meu ofício. Talvez seja um sinal do destino mesmo. Oxalá! Assim fica mais bonita ainda a história de amor que eu tenho com essa arte. E como em toda história de amor: dores e sabores. Enfim... Estava predestinado. Que felicidade! Que sorte! Sou um privilegiado.

O teatro me fez, me formou, me deu caráter, me deu norte, noção, senso, ensinamento, fôlego. Cada ato com ele, cada atitude perante essa magnitude te leva a coisas maiores. Ele é a mais pura roda da vida, cíclica, consequente.

Aceitei o convite para o espetáculo “Sua Incelença, Ricardo III” com os Clowns de Shakespeare e Gabriel Villela. Consequências? Várias. Enormes. Uma ação leva a uma reação. Cada palhinha movida gera alguma coisa de volta. Tive que reajustar muitas coisas na minha vida, assumir outras, me alegrar e me doer com algumas, ir a outros lugares com ele. Geográficos e abstratos.

Quando as qualidades se misturam é que você percebe o quão magnífico uma coisa pode ser. Há lugares que são geográficos e abstratos porque o que os envolve o é e apresenta esse lugar assim. O teatro me apresentou Santiago do Chile. A América Andina.

Sempre me referi aos países da América Andina como a América Latina. Como se eu não fizesse parte daquilo. É um erro absurdo! Mas não tinha como não ser. Essa escoliose que o Brasil tem é só o reflexo corporal da nossa atitude. Nos afastamos da “América Latina” e, no entanto, somos mais dela do que imaginamos. Somos muito parecidos. Em muitas coisas. Somos latinos! É maravilhoso descobrir, constatar isso. É melhor ainda fazê-lo através do teatro. Pela possibilidade prática e pela possibilidade subjetiva. É maravilhoso...

Estivemos com “Su Excelencia, Ricardo III” na edição de 2012 do Santiago a Mil, o festival mais importante da América Latina. As experiências foram inúmeras e maravilhosas. A chegada, o trabalho, os ensaios, as apresentações... No meio disso tudo ir se reconhecendo, revisitando um chão.

Nossa primeira apresentação no Santiago a Mil foi incrível. O público de Melipilla, uma cidade cerca de uma hora de Santiago, veio conosco bonito. A troca foi linda! Os agradecimentos de grupos de senhoras, jovens que se tornaram fãs, gente que se reconheceram também. Maravilhoso...

Em seguida fizemos duas apresentações em uma comuna chamada Puente Alto. O parque era lindo, a plateia inteligente, calorosa, sensível, divertida e entregue. É maravilhoso ouvir Marco gritar: “E viva a América Latina!!!!”, gritar um “Viva!” e sair dançando. Não sei explicar. Acho que tudo faz parte da sensação de reconhecimento. Por enquanto relatos. Ainda não dá...

Posteriormente fizemos apresentações bem difíceis no Parque La Castrina na comuna de San Joaquín. Muito aprendizado, exercício, crescimento. Ainda tinha mais pela frente!!! Durante essa semana tive experiências maravilhosas. Passar o dia com nosso querido Maurice Durozier e o maravilhoso bando do Thèâtre du Soleil, ajudá-los a preparar o espaço, sentir a sensação de estar preparando o terreno para entrar junto com eles, vê-los, ver tudo em função da arte, do teatro, da seriedade, do poder e da mágica que tudo isso tem foi maravilhoso. A visita à La Chascona é inspiradora. As cumbias de Patrício Cobarde são eletrizantes. Era sempre muito bom, uma mistura de embriaguez com total lucidez essa sensação de estar sempre se reconhecendo latino. Sem ser avisado. Por qualquer coisa.

Na semana seguinte Santiago seguiu plenamente a Mil! Tive a oportunidade de conferir uma exposição no Museo de la Memoria sobre o golpe militar chileno e a retomada da democracia. É tudo muito lindo, especial e doloroso. A dor é compartilhada, mas muito solitária também. No Brasil não temos noção do que a nossa ditadura representou. É tudo muito recente para que não saibamos e sintamos o que é isso. Essa ferida ainda está aberta, em chagas, sangrando. Em países muito menos desenvolvidos que o nosso as comissões da verdade já foram estabelecidas, uma satisfação foi dada e o povo já pode olhar pra trás, se reconhecer, se indignar. É como diz uma frase na exposição: "Para que nadie diga: Yo no sabía." Não precisamos olhar para a ferida incessantemente, mas precisamos saber que ela existiu. É uma questão de respeito e dívida. Me emocionei muito. Me doí muito pelo nosso povo, pelos nossos guerrilheiros, pela nossa história. Esquecida. Não contada.

Nos dias 16 e 17 fizemos apresentações do espetáculo na frente do Palacio la Moneda, sede do governo chileno. Uma arquibancada gigante e mais um tantão de gente sentada no chão formando um tapete caloroso, receptivo, responsivo, festivo e cúmplice. Foi muito significativo nos apresentarmos ali. Um PALCO! Imaginar a invasão americana àquele espaço e encenar uma guerra de poder em frente não tem preço. Fazendo o carnaval, então...

Posteriormente coroamos tudo: nos apresentamos no Museo de la Memória, onde há a exposição. Foi muito forte. Me emocionei, me doí, chorei. Algo precisa mover-se!

"Hay que atreverse a complicar!"

Os dias passaram... A mala pronta e nela, além da muda de roupa que veio e das garrafas de vinho que vão, vai a maravilhosa sensação de dever cumprido. Nada paga. Nossa participação na edição de 2012 do Santiago a Mil encerrou-se de uma forma incrível: uma apresentação belíssima em todos os sentidos na bela Valparaíso. Nada podia ser melhor. Público lindo, energia da roda potente, força, gana, vontade, felicidade!!!

De outras experiências não posso deixar de citar o explosivo show da banda La Conmoción. O que é aquilo??? 19 músicos e 1 performer podem gerar força motora pra o globo terrestre girar mais rápido. É gás. Se tem carnaval em Santiago, quem o faz é La Conmoción.

O melhor de tudo nas duas experiências citadas? Poder comprovar que o teatro é essencial.

E Santiago? Apesar dos "Não pode!" vai seguindo a Mil como toda a América Latina!

Um viva e um obrigado a nós, aos nossos companheiros de vida e de lida, ao Brasil, ao nosso continente, ao nosso povo!

E viva Latino-américa!!!

Em casa. Na casa Brasil. Dessa vez a melhor sensação não foi só a da volta. Foi a de voltar e saber que ainda estou na América Latina. Por incrível que pareça muita gente esquece ou não se dá conta...

"La espina dorsal del planeta es mi cordillera"


P.S. Por enquanto só o que dá: relatos.

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