terça-feira, 13 de setembro de 2011

Complexo?

Estamos no Rio de Janeiro para participar da segunda edição do Tempo Festival. Esta cidade é mundialmente conhecida. Por vários motivos: as belezas naturais, o povo hospitaleiro, o imenso show que é seu carnaval de escolas de samba e de rua, pelo imenso tráfico de drogas e pelo alto índice de violência.

Estes dois últimos tópicos podem ser encontrados em inúmeros lugares da cidade (do país também), mas mais ainda nos morros e favelas que a circundam. Ano passado a situação chegou a um ponto tão crítico que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com apoio da Marinha do Brasil, fez uma operação especial. Uma frente formada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, a Polícia Federal, a Polícia Civil e as Forças Armadas foi criada para pacificar a cidade. No dia 26 de novembro de 2010 colocaram a operação em prática. O lugar escolhido: o Complexo do Alemão.

Este complexo é formado por 13 (treze) favelas da Zona Norte da cidade, dentre elas o Morro do Adeus (nome muito sugestivo). Em novembro do ano passado o Complexo e o Morro estiveram nas principais manchetes do mundo por conta da ação pacificadora. Os soldados invadiram 11 (onze) das favelas entrando em guerra com os traficantes e o resultado foram traficantes expulsos, drogas apreendidas e incineradas, população apoiando, feliz, tranquila. Era inacreditável ver as cenas pela televisão. Parecia coisa de filme e isso tudo fica no imaginário de qualquer um.

A produção do festival resolveu criar o Projeto Ocupação para esta edição do evento e convidou os Clowns de Shakespeare para fazerem duas apresentações do espetáculo "Sua Incelença, Ricardo III" no Morro do Adeus e ministrar uma oficina para a comunidade. As apresentações serão realizadas no alto do Morro onde fica a estação de teleférico que serve de transporte entre as favelas para a população. Lá funcionava um dos “microondas” (lugar onde traficantes aniquilavam inimigos de forma brutal e violenta) do Complexo. Este mesmo solo dará espaço ao teatro... É genial imaginar isso, vislumbrar essa possibilidade, dimensionar as potencialidades de um acontecimento desses. Será uma oportunidade de levar o festival e produtos culturais para a Zona Norte da cidade, para a grande periferia, para a grande maioria que não tem acesso a esses produtos e ao festival. Inacreditável! Magnífico! Estávamos todos ansiosos por isso. Seria uma oportunidade única.

Mais uma vez as manchetes. Alguns dias atrás começaram novamente conflitos no Complexo do Alemão. Mais precisamente no Morro do Adeus, uma das duas favelas do Complexo que não havia sido pacificada. Não vou negar que fiquei extremamente apreensivo. Todo o imaginário que foi construído não parava de saltar-me os pensamentos. O medo era muito grande. Sabíamos que a mídia não toma conta de tudo, que ela recorta a situação, que a produção do evento jamais colocaria nossas vidas em risco, que se não fosse possível realizar as atividades previstas haveria uma outra solução, mas mesmo assim nos preocupamos muito e, assim, fomos deixando os dias passarem achando que seríamos transferido para algum lugar. Não fomos. Chegamos curiosos, perguntando aos membros da produção como estava tudo e a resposta foi: “está tudo bem”, “estivemos lá”, “está tudo em ordem”. O Exército passou a ocupar essas favelas que faltavam e a situação estava controlada. Era acreditar e ir.

Escrevo esse post depois de nosso primeiro dia no Complexo do Alemão. Estou bem. Vivo. Viva! Dá pra saber que a coisa é, pelo menos, diferente. E como é. Bem diferente. Chegamos às 09h de hoje no Casarão da Cultura, uma casa antiga do século XVIII (alguns acham que isso é exagero e que a casa é do século XIX) com muitas marcas de bala nas paredes por conta dos conflitos no ano passado. A construção é uma das primeiras da região e hoje abriga esse espaço cultural. Aulas de diversas linguagens artísticas acontecem lá. Dança, canto coral, teatro, orquestra de música, além de reforço escolar, etc. Nosso primeiro dia de oficina foi maravilhoso. Nunca encontrei com caras, mãos, corpos e falas tão sedentos, tão disponíveis. Depois da pacificação as crianças e os adolescentes da comunidade precisavam ser ocupados. Caso contrário o tráfico poderia ocupá-los mais uma vez. Inúmeros projetos sociais apareceram. Eles... Sempre os questionei, olhei meio torto. Aqui eles são vitais. Funcionam. Tem muito solo fértil para isso.

É emocionante vê-los falar de suas realidades que não teremos noção nunca do que é. Nem de perto. Não temos o referencial de não termos um equipamento cultural, por pior que seja, em volta. As oportunidades (palavra muito repetida hoje na boca de cada um) precisam urgentemente serem oferecidas. Lá cada um “faz o que se oferece” como disse Luciano, um jovem morador do Complexo que já tinha sido de cabeleireiro a mecânico de carros ao falar de suas experiências profissionais. É só uma questão de oportunidade. Isso é concreto ao vê-los fazendo os exercícios.

Talvez eu esteja fazendo um discurso extremamente demagógico, apaixonado e emocionado para uma leitura superficial de um blog. Se eu tivesse lendo isso teria essa certeza. Sempre as tive. Idiota! Só se pode ter certeza sobre o seu umbigo. Nada mais. Entender o que se passa num lugar como esses é gigantesco. Nos faz entender que autoridade pra se falar de um assunto não é dada nos livros, mas na vivência.

Enfim, estou muito feliz, emocionado, orgulhoso, satisfeito e ansioso. Quero mais. Com certeza serão momentos de muito aprendizado. Amanhã e depois continuamos nossa oficina. No fim de semana duas apresentações para a comunidade. Muitos dos participantes e, certamente, muitos dos espectadores verão e ocuparão minutos de suas vidas com a coisa mais incrível da face da terra: a apreciação artística (mais especificamente o Teatro!). Viva!!!

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