sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Traje-nuvem

O paletó era de linho branco. Era muito alvo e denunciava logo o seu pouco uso. Suas linhas retas e tesas também. Era usado somente em ocasiões muito especiais. A festa de Yemanjá era uma delas. Era o dia dos agradecimentos pelo ano de fartura nas redes de pesca ou o dia de súplicas quando o ano não era tão farto. Deixava de usar branco, sua cor preferida, no dia de virada de ano porque a data era muito próxima do dia 2 de fevereiro. Talvez o paletó manchasse, desgastasse ou simplesmente estaria sendo repetido em ocasiões muito próximas, o que lhe tirava o status de, em suas próprias palavras, "roupa importante" e isso já era suficiente para deixá-lo guardado no dia 31 de dezembro. Todo dia 2 de fevereiro estava ele lá, rígido. Primeiro porque a seriedade e o respeito pela ocasião lhe deixavam assim naturalmente. Segundo porque a peça era passada a ferro com goma, ficava dura e não havia uso que lhe desse leveza, balanço e caimento. Dependendo do santo a quem houvera feito a promessa, pedido, agradecimento e afins, a camisa e a gravata poderiam mudar de cor nas festas de fevereiro. Claro, a homenagem principal era para ela, para a sereia, mas gente como ele tem muito o que depender do auxílio de quem não está por aqui. Nada mais justo que agradecer, à sua forma, mas agradecer. Afora o dia de homenagens à sereia ele só usou o paletó no dia do falecimento de sua esposa. A velha o deixara por volta das quatro da manhã. Hora eleita pelos dois como a mais bonita do dia especialmente quando as nuvens começavam a ganhar um tomzinho amarelo-queimado nas bordas e os primeiros raios de sol começavam a aparecer. A despedida era outra ocasião de respeito. Neste dia ele estava totalmente de branco completando com camisa, gravata, sapatos e meias o traje-nuvem. O fato é que até aqui tudo que relatei não passa de lembranças da infância de um homem apaixonado pela devoção sem ele mesmo saber disso. Hoje o paletó não é mais branco ou, pelo menos, não é mais tão alvo. Tornou-se traje corriqueiro e habitual. Não! As coisas não estão tão banais nem ele está tão desrespeitoso assim. O fato é que agora todos os dias são ocasiões especiais. Especialíssimas. Pelo menos todos os dias se espera por elas. Por ela. Todos os dias ele veste seu paletó e senta à beira da sua calçada que faz fronteira com a areia da praia e esperava as nuvens e o céu mudarem de cor. Ali ele recebe a visita do nascer do sol e com ele uma breve aparição do sorriso da falecida esposa.

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