sexta-feira, 11 de maio de 2012


"Sobre quando o que é realmente importante nos move". Isso poderia ser um epitáfio para Silvero Pereira. Dramático? Sim. Da mesma forma ele também o é, o que ele faz, o que o move, o que está em volta dele, a reação das pessoas ao seu redor... Esta semana surgiu uma enxurrada de matérias em jornais, sites, blogs, programas de TV e afins sobre o Translendário, uma criação artística do ator Silvero Pereira e sua equipe. O objeto artístico da vez trata-se de um calendário onde em cada mês há uma fotografia produzida especificamente para ele.

As fotografias dizem respeito e fazem referências a inúmeras coisas, datas importantes para o movimento LGBT são mencionadas e uma dose de humor (inerente a essa galera, tanto aos travestis quanto aos atores que acompanham Silvero) permeiam as folhinhas. Obras de arte são recriadas como a Mona Lisa e a Última Ceia de Leonardo da Vinci e a Pietá de Michelangelo. Releituras muito bem produzidas. O imbróglio se deu porque o deputado estadual Fernando Hugo (PSDB/CE) se sentiu ofendido por algumas imagens religiosas fazerem parte da obra e porque a Prefeitura Municipal de Fortaleza havia apoiado o Translendário.

Muito se foi dito: as obras são universais e não religiosas, os artistas criadores das obras originais nem religião tinham, a prefeitura, enquanto organismo laico, poderia sim apoiar iniciativas como essa, não houve apoio financeiro, etc. Detalhes. A questão é maior assim como Silvero, seu trabalho e sua trupe também o são. Ah, e vale ressaltar que todo o elenco envolvido é de profissionais da área artística, ou seja, desenvolvem um trabalho de elaboração artística para a criação das personagens-travestis. Isso não melhora nem piora nada. Só atesta.

Silvero tem desenvolvido um trabalho e uma pesquisa artística e social sobre o universo das travestis e transexuais há algum tempo em Fortaleza. Seu trabalho tem ecoado pela sociedade, trazido um público grande e diversificado para o teatro e, assim, o artista tem alcançado respeito profissional e pessoal e sua obra juntamente com seus temas tem sido mostrados para o público, atrelados a um início de reflexão e discussão sobre os mesmos.

Silvero e seu trabalho artístico (reflito sobre se essas duas coisas se dissociam) vão muito além de  qualquer polêmica sensacionalista elaborada para desviar um debate necessário à sociedade brasileira atual. Vão também muito além de qualquer piada de mau gosto porque vão ao centro da questão: o ser humano. A trajetória pessoal e artística (realmente elas não se dissociam) de Silvero provam isso. Contra fatos não há argumentos. É inegável a honestidade, a responsabilidade e a competência com que Silvero sempre desenvolveu suas coisas, se apropriou de outras, transformou algumas e criou mais um bocado.

Acho que tenho um pouco de conhecimento de causa pra falar disso. Acompanho o trabalho de Silvero desde quando "A dama da noite" de Caio Fernando Abreu (engana-se quem acha que tudo começou aqui. Tudo começou em Silvero. Dentro dele.) era apenas um esquete ainda em processo de ensaio para um festival em Fortaleza apresentado para alguns amigos na sala de aula da Casa de Artes do curso de artes cênicas do antigo CEFET-CE. Vi, vimos, alguma coisa ali. Não soubemos o que era. Nada havia se apresentado daquela forma para nós porque era muito pessoal, particular, por isso genuíno. Arrisco dizer que nem Silvero sabia o que era e muito menos no que se tornaria, mas ele certamente iria fazê-lo sem pensar sistematicamente nisso porque era um curso natural. Era necessário.

Com o passar dos anos a coisa só aumentou. Espaços profundos para serem explorados foram encontrados dentro de Silvero. Milhões de assuntos sobre o mesmo tema ainda não o haviam esgotado. Ecos criados dentro dos espaços profundos alardeavam pela cidade. "Nem tudo ainda foi dito." Lembro-me bem dessa frase de Silvero em meio a uma das tantas rodas de conversa sobre teatro, vida, cidade e sociedade. Silvero elegeu uma camada da nossa sociedade que herdou e carrega impiedosa e gratuitamente um profundo e monstruoso desrespeito como seu alvo de interesse, pesquisa e estudo (artístico, social e humano), o universo das travestis e transexuais. Aqui também reflito se foi Silvero que o elegeu ou se isso é caso de predestinação. Vai saber...

O fato é que tentar mostrar que há algo de humano no que é diferente de uma maioria não é só ignorado como essas pessoas que vivem à margem de uma sociedade como a nossa são. Isso é também rejeitado, rechaçado, violentamente agredido da forma mais covarde possível.

Não podemos desviar a atenção dos fatos. Não há nada com religião. Não há nada com escolhas. Há tudo com o que se é sem se pensar como ou porquê. Precisamos de um debate justo sobre todos os indivíduos que compõem uma sociedade, seus direitos, seus deveres, o respeito devido a cada ser humano. Isso não é fácil e está muito longe de acontecer. Somos todos humanos e precisamos ser tratados assim. A única coisa que vai dizer respeito ao seu caráter é ele próprio. Nada mais. Nenhuma opção, nenhuma identidade.  Antes de tudo, humanos.

Pra quem começar esse debate desejo muita fé, força coragem e garra. Será necessário. Acho que alguém já começou. Lá na sala de aula.

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