"Sobre quando o que é realmente importante nos
move". Isso poderia ser um epitáfio para Silvero Pereira. Dramático? Sim.
Da mesma forma ele também o é, o que ele faz, o que o move, o que está em volta
dele, a reação das pessoas ao seu redor... Esta semana surgiu uma enxurrada de
matérias em jornais, sites, blogs, programas de TV e afins sobre o
Translendário, uma criação artística do ator Silvero Pereira e sua equipe. O
objeto artístico da vez trata-se de um calendário onde em cada mês há uma
fotografia produzida especificamente para ele.
As fotografias dizem respeito e fazem referências a inúmeras
coisas, datas importantes para o movimento LGBT são mencionadas e uma dose de
humor (inerente a essa galera, tanto aos travestis quanto aos atores que
acompanham Silvero) permeiam as folhinhas. Obras de arte são recriadas como a Mona
Lisa e a Última Ceia de Leonardo da Vinci e a Pietá de Michelangelo. Releituras
muito bem produzidas. O imbróglio se deu porque o deputado estadual Fernando
Hugo (PSDB/CE) se sentiu ofendido por algumas imagens religiosas fazerem parte
da obra e porque a Prefeitura Municipal de Fortaleza havia apoiado o
Translendário.
Muito se foi dito: as obras são universais e não religiosas,
os artistas criadores das obras originais nem religião tinham, a prefeitura,
enquanto organismo laico, poderia sim apoiar iniciativas como essa, não houve
apoio financeiro, etc. Detalhes. A questão é maior assim como Silvero, seu
trabalho e sua trupe também o são. Ah, e vale ressaltar que todo o elenco
envolvido é de profissionais da área artística, ou seja, desenvolvem um
trabalho de elaboração artística para a criação das personagens-travestis. Isso
não melhora nem piora nada. Só atesta.
Silvero tem desenvolvido um trabalho e uma pesquisa
artística e social sobre o universo das travestis e transexuais há algum tempo
em Fortaleza. Seu trabalho tem ecoado pela sociedade, trazido um público grande
e diversificado para o teatro e, assim, o artista tem alcançado respeito
profissional e pessoal e sua obra juntamente com seus temas tem sido mostrados
para o público, atrelados a um início de reflexão e discussão sobre os mesmos.
Silvero e seu trabalho artístico (reflito sobre se essas
duas coisas se dissociam) vão muito além de qualquer polêmica
sensacionalista elaborada para desviar um debate necessário à sociedade
brasileira atual. Vão também muito além de qualquer piada de mau gosto porque
vão ao centro da questão: o ser humano. A trajetória pessoal e artística (realmente
elas não se dissociam) de Silvero provam isso. Contra fatos não há argumentos.
É inegável a honestidade, a responsabilidade e a competência com que Silvero
sempre desenvolveu suas coisas, se apropriou de outras, transformou algumas e
criou mais um bocado.
Acho que tenho um pouco de conhecimento de causa pra falar
disso. Acompanho o trabalho de Silvero desde quando "A dama da noite"
de Caio Fernando Abreu (engana-se quem acha que tudo começou aqui. Tudo começou
em Silvero. Dentro dele.) era apenas um esquete ainda em processo de ensaio
para um festival em Fortaleza apresentado para alguns amigos na sala de aula da
Casa de Artes do curso de artes cênicas do antigo CEFET-CE. Vi, vimos, alguma
coisa ali. Não soubemos o que era. Nada havia se apresentado daquela forma para
nós porque era muito pessoal, particular, por isso genuíno. Arrisco dizer que
nem Silvero sabia o que era e muito menos no que se tornaria, mas ele
certamente iria fazê-lo sem pensar sistematicamente nisso porque era um curso
natural. Era necessário.
Com o passar dos anos a coisa só aumentou. Espaços profundos
para serem explorados foram encontrados dentro de Silvero. Milhões de assuntos
sobre o mesmo tema ainda não o haviam esgotado. Ecos criados dentro dos espaços
profundos alardeavam pela cidade. "Nem tudo ainda foi dito." Lembro-me
bem dessa frase de Silvero em meio a uma das tantas rodas de conversa sobre
teatro, vida, cidade e sociedade. Silvero elegeu uma camada da nossa sociedade
que herdou e carrega impiedosa e gratuitamente um profundo e monstruoso
desrespeito como seu alvo de interesse, pesquisa e estudo (artístico, social e
humano), o universo das travestis e transexuais. Aqui também reflito se foi
Silvero que o elegeu ou se isso é caso de predestinação. Vai saber...
O fato é que tentar mostrar que há algo de humano no que é
diferente de uma maioria não é só ignorado como essas pessoas que vivem à
margem de uma sociedade como a nossa são. Isso é também rejeitado, rechaçado,
violentamente agredido da forma mais covarde possível.
Não podemos desviar a atenção dos fatos. Não há nada com
religião. Não há nada com escolhas. Há tudo com o que se é sem se pensar como
ou porquê. Precisamos de um debate justo sobre todos os indivíduos que compõem
uma sociedade, seus direitos, seus deveres, o respeito devido a cada ser
humano. Isso não é fácil e está muito longe de acontecer. Somos todos humanos e
precisamos ser tratados assim. A única coisa que vai dizer respeito ao seu
caráter é ele próprio. Nada mais. Nenhuma opção, nenhuma identidade. Antes de tudo, humanos.
Pra quem começar esse debate desejo muita fé, força coragem
e garra. Será necessário. Acho que alguém já começou. Lá na sala de aula.
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