
Quando as idéias povoavam a minha mente e iam preenchendo-a até tornarem-se fixas, até constituírem-se atos era um verdadeiro caos. Atrapalhavam-me os cálculos, vinham para destrambelhar tudo. Outro dia encasquetei que deveria te fazer uma visita. Preciso, preciso, preciso. Não precisava na realidade, mas já era tarde demais. Elas já haviam tomado conta de tudo. As idéias... Resolvi fazê-lo, até porque de todas as que me apareceram nos últimos 28 dias essa fora a menos complexa e trabalhosa porque você sempre fora uma vítima bastante receptiva a elas. Já sabia até como iria te encontrar. Janela aberta, seu dorso aparente, o vestido verde com estampa de minúsculas flores, corredor habitado apenas pelo finíssimo uivo da brisa que vinha do quintal, cozinha preenchida pela sua presença entregue a algum afazer doméstico com a maior satisfação do mundo, puro hobby. Enganei-me. Encontrei você apoiando-se com o cotovelo à mesa, mão no queixo, olhos fechados. Dormia. Ah essas idéias... Chegaram a um ponto de me surpreenderem com as coisas mais tolas e óbvias. Até a mais simples, a que não me daria trabalho, a que envolvia você era agora incompreensível. Como iria imaginar que te pagaria dormindo bem na hora da minha visita? Esperei um pouco, bem pouco mesmo. 5 segundos. O tempo suficiente para perceber que havia feito uma besteira, desistir, querer ir embora, mudar de idéia e decidir por ficar ali. Fiquei mais. 13 minutos e você dormindo na mesma posição. Me aproximei mais da mesa com o intuito de fazê-la acordar. Nada de fazer barulho fingindo que havia sido um descuido. A intenção era só fazer o meu calor te suspender um pouco daquela sesta. Planos frustrados. Ah essas idéias... Puxei uma cadeira e, dessa vez sim, fazendo barulho para que você despertasse e nada. Sentei-me, era o jeito. Esperar. Te observei uns minutos, não contei esses porque me perdi e acabei entrando em seu sono. Dormi com você. Cotovelo apoiado na mesa, mão no queixo, te observando, pálpebras caindo, dormi. Sonhei. Com você. Sonhei que encasquetava que deveria te fazer uma visita, ia e te encontrava dormindo. Resolvia entrar nos teus sonhos. Eles são normais. Bem normais. Sempre quis ter sonhos normais. Os meus são sempre comigo mesmo, com o que eu não fiz, com o que queria fazer e, os piores deles, com o que eu fiz. Estavam meio cinzas os teus sonhos. Resolvi mexer neles um pouco. Desculpe-me, mas não pude evitar. Baguncei um pouco, é verdade, mas não foi minha intenção. E se tivesse sido acho que você até me agradeceria porque eles ficaram um pouco melhores depois dos meus arranjos e combinações. Não estavam coloridos como se deve ser todo sonho que se preze, mas estavam tendendo mais pro azul agora. Te coloquei correndo levemente brincando com o vento. Descalça. Estava linda. Essa era a hora certa de sair dali. Era a hora mais bonita do teu sonho, pelo menos a hora em que você estava mais bonita. Precisava sair dali correndo antes que você acordasse e me pegasse com a boca na botija ou pior, antes que eu acordasse e não ficasse mais com aquela imagem fixa na mente. Essa era a imagem que eu queria guardar, você correndo levemente brincando com o vento. Ao acordar dali iria te encontrar ainda dormindo ou acordada, não sei, mas estaria com a lembrança de um sonho bom e colorido. Um dos que não tenho há mito tempo. O sonho da moça que corre e brinca com o vento.
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