Outro dia ele reparava as coisas ao seu redor. Decidiu ser uma pessoa sensível. Lera em algum lugar que sensibilidade nada mais é do que estar sempre atento ao mundo em sua volta, olhar e perceber o outro, suas ações, reações, relações consigo e com os terceiros, enfim, perceber e perceber-se. Ainda não tinha entendido ou ainda não sabia que só iria perceber-se depois que percebesse a alguém. Começou então sua tarefa. Era tão metódico que até mesmo na intenção de ser uma criatura sensível estabelecera um sistema operacional. Precisava seguir etapas como que um curso por correspondência, uma receita, enfim, algo do tipo. Primeiro escolheria o objeto, depois a observaria, levaria em conta os aspectos estranhos que o objeto lhe ofereceria, os avaliaria, tiraria conclusões, pensaria sobre, os compararia com aspectos pessoais, tiraria outras conclusões, se conheceria mais e seria, finalmente, uma criatura sensível. Começou a perceber. Olhava a todos em volta e nada demais lhe era estranho, todos comuns, iguais. Até que o grande objeto de estudo parecia ter aparecido. O grande diamante bruto pronto para ser lapidado pela futura criatura sensível parecia estar ali, diante de seus olhos. Alguém estranho. Sim, achava que para perceber as coisas elas deveriam ser estranhas aos olhos. E realmente devem, mas devem ser apenas estranhas na medida que são partes de um mundo diferente do seu, do comum, do particular, do habitual. A estranheza a que ele se referia para eleger alguém digno de observação era a estranheza extra cotidiana. A senhora entrou falando alta e estranhamente. Tinha a voz grave, gravíssima como a de quem fuma desde sua adolescência ininterruptamente. As veias do pescoço engrossavam à mínima vogal pronunciada. Todo e qualquer verbo parecia-lhe por demais sacrificioso. Olhou-a intensamente esperando algum efeito físico, químico, biológico, enfim, alguma reação no seu corpo como que o alívio da dor de dente obtido através de um remédio, alguma dormência, algum sinal da sensibilidade chegando. Nada acontecera. Mas ele não parou de observar a mulher e sua voz. Talvez aí tivesse começado o processo de mutação da criatura sensível, mas isso só ele poderá garantir. Perdeu-se olhando para a senhora até que um leve e automático gesto da observada o levou a outro estágio. Ela passara a mão pelo pescoço e ele, instintivamente seguira a mão. Parou. Não acompanhou mais a mão da senhora descendo e voltando à suas pernas. Parou no pescoço da senhora e olhou atentamente. Uma cicatriz em forma de "V" estava sob seu colo. O decote gritava a cicatriz. As duas hastes que formavam o "V" estavam bem nítidas, firmes e fortes. Ao longo delas, tanto de um lado como de outro, pequenos pontos sugerindo uma costura. Havia sido uma cirurgia. Uma cirurgia no coração. Só poderia ser. Enfarto? Pontes de safena? Artérias entupidas? Algumas possibilidades passaram pela sua cabeça, mas o que interessa disso é que uma antiga conclusão estava sendo dissolvida. A hipótese do cigarro ter criado aquela voz estava descartada. Com certeza. A cirurgia no coração foi a responsável. No mesmo instante lembrou de uma antiga companheira de trabalho de sua mãe que sofrera as mesmas etapas e possuía as mesmas conseqüências e características. Mergulhado em águas que misturavam cigarros, cirurgias, adolescência e cicatrizes deparou-se com uma saliência na ponta de seus dedos. Estava distraidamente alisando seu antebraço quando percebera um sinal. Ora, um sinal! Um sinal era uma cicatriz? Não. Não era. Fez um mapeamento geral de seu corpo e não vislumbrou nenhuma cicatriz. Ele não as possuía. Não considerava o pavor de terrenos baldios uma cicatriz. Isso porque não se lembra que foi em um desses, na sua remota infância, que lhe fora negado pela vizinha, em meio a correrias de crianças, um selinho em sua boca. Achou também que não possuíra cicatrizes porque não lembrava que só começou a gostar de morangos porque o batom da sua primeira namorada cheirava a um. Como não lembrava que hoje preferia se relacionar com pessoas do mesmo sexo e bem mais velhas que ele porque sua relação com seu pai sempre fora extremamente difícil, achava que não possuía cicatrizes. Em segundo algum daquele instante achou que não possuía cicatrizes porque não associava o fato de adorar estar sempre na companhia de seus amigos ao fato de ter sido sempre muito solitário dentro da própria casa que vivia cheia de gente. Hoje, depois de tudo que observou, percebeu e percebeu-se, já deve considerar o pavor de terrenos baldios e as outras coisas uma cicatriz. Já deve, também, ter identificado várias outras nele. Já deve também ter percebido que cicatrizes são meros sinalizadores, sejam eles de coisas boas ou ruins. Elas estão ali somente para dizer que algo aconteceu. Se, depois de ter vivido tudo que viveu, observado tudo que observou e percebeu, tudo que percebeu-se, se depois de tudo isso tiver entendido o papel simples das cicatrizes e, principalmente, das suas cicatrizes, ele hoje é uma criatura sensível. Atingira seu objetivo. Talvez sem nem precisar de seu plano operacional.
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