Hoje tive duas experiências que não tenho há muito tempo. Acordei muito cedo. Sem incômodos. Bastante satisfeito do sono, mas acordei. São 05h30 da manhã e já deu tempo de ver, sentir e processar todas as coisas que relato aqui. Há muito tempo isso não acontecia comigo e há muito tempo também não sentia as pessoas pela sua simples presença como senti meu pai hoje. Vê-lo acordar, escovar os dentes, andar pela casa, sair, voltar, trazer pra dentro de casa o cheiro da tarde da padaria, entre outras coisas, foi muito bom. Senti-lo. Somente. Lembrou-me muito a atmosfera que envolve os amantes do poema "Casamento" da Adélia Prado. É lindo. Vou à rua, à varanda. Tenho o privilégio de ver de cima a minha rua amanhecendo. Como ela é bonita... Fortaleza é realmente bela. Insuportavelmente bela. Os primeiros raios de sol chegam, a hora mais bonita do dia. Estou em uma posição privilegiada, uma encruzilhada. Vejo mais de uma rua, encontros. Poucos pedestres, alguns ciclistas, nenhum carro. As coisas vão, aos poucos, acontecendo, amanhecendo, acordando, desbravando-se. Um senhor moreno leva num depósito de plástico transparente as tapiocas que comporão para outras pessoas o mesmo cheiro que meu pai trouxe pra casa no início da manhã. Vai... Rangido longe. Os sons também vão desbravando-se. Outra bicicleta. Ritmo monótono e compassado. Rotina. Ela passa por uma senhora baixa e gorda vestindo rosa bebê levando seu guarda-chuva e seu terço. Certamente outra rotina. Elas, as rotinas, também vão desbravando-se. Na encruzilhada ela olha bem uma rua, a outra. Vem alguém? Sou a única? Segue. As luzes dos postes ainda estão acesas. Duas ou três da rua toda. Elas ainda dormem. Não reconheceram que já é dia. Não há sol efetivamente, só os primeiros raios, mas já é dia claro. Mais silêncio, mais ninguém, somente eu. Eles me dão tempo para absorver e realmente observar tudo que passou até aqui. Fortaleza está acordando. Um carro aqui e acolá. Ingenuidade! Não estou só. E o pior: estou sendo observado. Na calçada de uma das outras três esquinas um gato completamente branco de rabo completamente cinza me olha. Também olho pra ele. Ele vai. Não nos oferecemos ameaças um ao outro. Sobe o muro, se sustenta, alinha-se e percorre a linha de tijolos de lá pra cá, observa o quintal da vizinha não como quem vai dar o bote, só observa. De longe um galo canta. Não sabia que alguém aqui tem um galo. As galinhas observadas pelo gato se encorajam com o canto do galo e cacarejam, todas. O gato vai. Sinto as coisas mais claras, mais amarelas, iluminadas. Já há algum sol. As nuvens parecem se enrolar nas vestes de Oxum, estão todas amarelas. É concretamente dia. Volto a dormir.
3 comentários:
Sublime.
Thiago Freitas.
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