Os blocos cinza retangulares eram compridos. De vez em quando eram atravessados por um quadrado preto de textura áspera. Eram quase sempre uniformes, os cinza. De vez em quando algumas partes possuíam listras, pequenos detalhes ou restos de chiclete grudados. O preto do meu sapato pisava neles e saltava-me aos olhos, destacavam-se. Mas quando eu atravessava as ruas, os quadrados pretos que atravessavam os retângulos cinza que formavam as calçadas em que eu andava, o preto do asfalto era agora parte do meu sapato, os dois eram pretos, tornavam-se invisíveis. Assim eu ia caminhando, olhando pra baixo. Não estava triste, não, não poderia estar porque estava muito feliz. Era só mania mesmo de andar de cabeça baixa. Outra mania também era ter mantida a atenção por qualquer motivo bobo que passasse de frente dos meus olhos. Fico olhando, observando, assim, como fiquei nessa ocasião de olhar meus sapatos pretos em contraste com o cinza da calçada e em consonância com o preto do asfalto. Pouco tempo depois eles já não faziam tanto contraste com a calçada porque começou a cair uma ligeira chuva, suficiente para deixar a calçada molhada e agora não tão mais cinza, mas não tão suficiente para me fazer parar de andar e me abrigar em alguma marquise, toldo ou coisa parecida. Continuei caminhando na chuva, era rala, não encharcava, só dava a sensação de tranquilidade como a que dá quando você almoça e deita em uma rede depois. Entre os cinzas que compõem quase todas as ruas da minha cidade encontro um pouco de verde, amarelo, rosa e vermelho. Pequenos pontos. Passo direto e só depois de alguns segundos as pequenas quantidades de cores me chamam atenção. Volto, entro na floricultura e resolvo comprar algum ramalhete, afinal, tínhamos motivos pra comemorar. Arrumei emprego novamente e dessa vez dá pra sustentar nós dois pra que ele continue escrevendo, se dedicando à literatura como sempre sonhou. Compro as de sempre: beijo-comum. Não sei o nome verdadeiro dessa flor e acho que seria até menos bonito se soubesse. Gosto das coisas comuns, aquelas que estão sempre lá, que não fazem alarde e que se elas se vão, não somos mais a mesma pessoa. A chuva aumenta e me apresso. Chego em casa, ele escreve, deixo as flores sobre a mesa, tiro o casaco, ponho as flores no vaso, café em uma xícara, deixo perto dele, ele olha pra mim, me abraça e me dá um beijo, um desses comuns, do dia-a-dia, sem fogos de artifício, reais, simples, mas extremamente necessários e essenciais.
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