É junho e estou retornando a Fortaleza. Estive aqui na Semana Santa e esta tinha sido a primeira vez que retornava desde quando fui morar em Natal. Hoje, volto pela segunda vez e tudo é imensamente diferente porque me sinto mais diferente. Eu não sou eu, minha casa não é minha casa. Tudo está fora do lugar e tudo se locomoveu pra um lugar melhor, mais maduro, mais claro, mais tranquilo e tudo da melhor forma possível. O incrível disso tudo é que mesmo com tudo fora do lugar, voltar a Fortaleza me traz mais de mim, me mostra mais quem eu sou como se eu nunca tivesse saído daqui e ainda estivesse com os pés fincados qual raiz de árvore centenária e frondosa. Chegar em casa e antes mesmo que o carro dobrasse a esquina escutar um barulho de chuva estranhíssimo e completamente deslocado já que não havia chuva e nuvem alguma e, ainda por cima, o barulho era indubitavelmente localizado em um determinado espaço geográfico me fez voltar há muito tempo. O barulho de chuva vem das fitas de plástico verde e amarelo amarradas em barbantes suspensos sob a rua de um lado para o outro fazendo uma sombra sobre o asfalto e provocando um barulho de água caindo quando o vento batia e balançava todos eles. Era copa do mundo e a rua estava toda verde e amarela! Fitas no céu, pinturas no asfalto. Nossa... Noites e noites com todas as senhoras e toda a meninada do bairro cortando, amarrando, puxando, levantando, subindo, descendo, enfeitando. Lembro demais! Era muito bom... Já circulando pela cidade, vou chegando perto do Theatro José de Alencar e tenho uma sensação de liberdade: as calçadas estão completamente livres! Que coisa linda!!! Poder deixar o velho Zé respirar e deixar todos que passam por ali naquele frenético compasso terem um breve instante de uma epifania, um suspiro, um alento tão grande e rara é a sua beleza. Ver o povo de Fortaleza circulando pelo Centro da cidade, ver o material humano que me forma, que me diz como eu sou e de onde eu vim. Em mais andanças pude pegar o Circular 2 na parada de ônibus do Dragão e fazer aquele trajeto do mais corriqueiro possível há alguns meses e perceber como ele é lindo. Passar por parte da orla marítima de Fortaleza, pelas avenidas onde circula tudo e todos, vê-los, sabê-los. Tive oportunidade também de ir ao teatro Universitário onde funciona o Curso de Arte Dramática (CAD) da UFC. Nossa! Lá onde ensaiei minhas primeiras imersões no teatro. Ir ali, sentar no batente da entrada do teatro, esperar, vê-lo, sabê-lo, lembrá-lo, lembrar-me, ver-me, saber-me. Por mais que eu fique aqui descrevendo esses dias e experiências como essas, sempre vai parecer banal, corriqueiro e nunca vai parecer tão profundo como foi porque só quem passa pela experiência de se ver e se conhecer melhor é que tem a dimensão do que é e de onde veio. Arrogante? Talvez. Prefiro dizer: próprio.
Fuçando meu computador, achei isso que tinha escrito e não tinha postado. Tive tempo pra tudo, menos pra mim esses últimos dias turbulentos, ocupados, produtivos, reveladores e apaixonantes. Não me culpo nem me martirizo por isso porque tenho saldo depois de ter percebido tudo isso que escrevi.
3 comentários:
Joel, que texto bonito! Cheio de vida! Só você mesmo para dividir um momento tão seu, tão cheio de significados, tão íntimo...
Lendo você relatar tudo isso, me pergunto onde eu estava? Tenho ótimas lembranças de você e com você! Essa mulher aí do post seguinte entende muito bem o que sinti agora lendo seu blog... saudade (post com texto da Clarice Lispector)!
Torço muito pelo seu sucesso, pela sua felicidade.
Um beijo grande,
Isabelle
Joel amo você. Que alegria te tê-lo perto. E viva Fortaleza que te fez assim.
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