quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Um fio puxado e um arranhão na tela: herança.


Decidira ir andando para casa. Perdão. Não era sua casa. Mas era o lugar onde tivera pouso durante o mês intenso de trabalho. Isso já fazia de lá sua casa. Assim, indo caminhando para casa, o faria conhecer um pouco mais a cidade, a região onde estava. Obviamente não era sua cidade também. Não fazia mal. Nada estava no lugar naquela noite. Perdão. Naquela manhã. Não havia dormido e isso ainda fazia daquele período do dia uma simples e natural continuação do dia anterior. Quando dormisse e, posteriormente, ao acordar é que seria o amanhã. Chegou em casa. No pouso. Repousou a gola polo cinza sobre a cama. Ela denunciava muita coisa. Estava amassada. Sentou na cadeira ao lado da cama e vagou o olhar pelo ar como fazem os zumbis. Não fizera esforço, mas as horas que antecederam àquele momento vieram à cabeça. Um fio puxado na camisa fez voltar sua atenção a fatos banais, simplórios, dignos de nenhuma importância. Gostava daquela peça. Agora ela tinha um fio puxado. Mas como? De onde? Ah... Os gatos. Um deles. Sorriu, ficou feliz. Tomara que tenha sido um deles! Era uma marca, um sinal, uma prova de que tudo tinha acontecido. Melhor: uma lembrança. Não precisava disso, mas era gostoso tê-lo. Gostara dos gatos. Gostara de tê-los entre ele e o outro. Vai entender... Resolveu pegar o celular e enviar uma mensagem. Saudade, tentativa de manter contato, simpatia ou carência? Vai saber... Na tela do aparelho, um arranhão que não existia. Os gatos. Os gatos? Seria coincidência demais? Sinais demais? Poderia ser vontade demais. Só ela, os frutos dela, as elucubrações. E se... Viagem. Não faz mal. A passagem dessa é de graça.

Não importava. Na pior das hipóteses teria como herança um fio puxado na camisa e um arranhão na tela do celular. O que importa é o encontro. A busca é sempre a primeira da fila e assim o efeito placebo vai sempre reinando. Possibilitar o encontro é dar oportunidade ao princípio ativo. É esquecer que existe a metade da laranja porque ela não existe. Se existir eu não quero pra mim. Quero uma laranja inteira pra que junto com a minha sejamos dois inteiros. Não sou metade, não posso ser. Não quero uma metade. Sou um inteiro e quero outro inteiro. Por quanto tempo e de que forma isso vai funcionar não importa. Se aconteceu já é maravilhoso. Entende? A única coisa boa que tem dois lados e que funciona são aqueles restaurantes com um lado para gente sem charme e outro para fumantes.

Nada estava no lugar. Nem naquela noite, nem no mundo. Torceu para que as coisas continuassem assim, fora do lugar. Somente com elas fora do lugar é que elas poderiam vagar, passear e esbarrar-se umas com outras que também estavam fora do lugar. O encontro. A explosão. As duas pontas dos fios de cobre que se encontram, se enroscam e geram eletricidade, força, vida. Isso é muito bom. Isso deixa herança. Melhor: legado.

Um comentário:

leo disse...

...que bom que estava lá e possibilitou que os fios fossem ligados nesses labirintos do meu coração. Fique "rezistrado" que deixou saudades. L.