Decidira ir andando para casa. Perdão. Não era sua casa. Mas
era o lugar onde tivera pouso durante o mês intenso de trabalho. Isso já fazia
de lá sua casa. Assim, indo caminhando para casa, o faria conhecer um pouco
mais a cidade, a região onde estava. Obviamente não era sua cidade também. Não
fazia mal. Nada estava no lugar naquela noite. Perdão. Naquela manhã. Não havia
dormido e isso ainda fazia daquele período do dia uma simples e natural
continuação do dia anterior. Quando dormisse e, posteriormente, ao acordar é
que seria o amanhã. Chegou em casa. No pouso. Repousou a gola polo cinza sobre
a cama. Ela denunciava muita coisa. Estava amassada. Sentou na cadeira ao lado
da cama e vagou o olhar pelo ar como fazem os zumbis. Não fizera esforço, mas
as horas que antecederam àquele momento vieram à cabeça. Um fio puxado na
camisa fez voltar sua atenção a fatos banais, simplórios, dignos de nenhuma
importância. Gostava daquela peça. Agora ela tinha um fio puxado. Mas como? De
onde? Ah... Os gatos. Um deles. Sorriu, ficou feliz. Tomara que tenha sido um
deles! Era uma marca, um sinal, uma prova de que tudo tinha acontecido. Melhor:
uma lembrança. Não precisava disso, mas era gostoso tê-lo. Gostara dos gatos.
Gostara de tê-los entre ele e o outro. Vai entender... Resolveu pegar o celular
e enviar uma mensagem. Saudade, tentativa de manter contato, simpatia ou
carência? Vai saber... Na tela do aparelho, um arranhão que não existia. Os
gatos. Os gatos? Seria coincidência demais? Sinais demais? Poderia ser vontade
demais. Só ela, os frutos dela, as elucubrações. E se... Viagem. Não faz mal. A
passagem dessa é de graça.
Não importava. Na pior das hipóteses teria como herança um
fio puxado na camisa e um arranhão na tela do celular. O que importa é o
encontro. A busca é sempre a primeira da fila e assim o efeito placebo vai
sempre reinando. Possibilitar o encontro é dar oportunidade ao princípio ativo.
É esquecer que existe a metade da laranja porque ela não existe. Se existir eu
não quero pra mim. Quero uma laranja inteira pra que junto com a minha sejamos
dois inteiros. Não sou metade, não posso ser. Não quero uma metade. Sou um
inteiro e quero outro inteiro. Por quanto tempo e de que forma isso vai
funcionar não importa. Se aconteceu já é maravilhoso. Entende? A única coisa
boa que tem dois lados e que funciona são aqueles restaurantes com um lado para
gente sem charme e outro para fumantes.
Nada estava no lugar. Nem naquela noite, nem no mundo.
Torceu para que as coisas continuassem assim, fora do lugar. Somente com elas
fora do lugar é que elas poderiam vagar, passear e esbarrar-se umas com outras que
também estavam fora do lugar. O encontro. A explosão. As duas pontas dos fios
de cobre que se encontram, se enroscam e geram eletricidade, força, vida. Isso
é muito bom. Isso deixa herança. Melhor: legado.
Um comentário:
...que bom que estava lá e possibilitou que os fios fossem ligados nesses labirintos do meu coração. Fique "rezistrado" que deixou saudades. L.
Postar um comentário