quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O que temer?

Eu devia ter uns oito anos e a casa ainda tinha cheiro de areia e cimento molhado. Há algum tempo as reformas haviam parado, mas esse era o cheiro do local. Fomos nos acomodando como dava e passamos alguns anos nela assim. O corredor que dava acesso aos quartos, no fim, à cozinha, no meio, e à sala no início, era longo. Toda a casa era longa, grande. Quase sempre ela não estava totalmente iluminada, era meio obscura. Não chegava a dar medo porque era a minha casa, mas dependendo do local e da situação ela poderia criar um certo receio, estado de alerta, aceleração do coração, etc. Quando eu e meu irmão ficávamos de castigo, por exemplo, era sempre no fim do corredor, no quase escuro total, em uma poltrona grande, velha e abandonada que ficava lá. Ela havia sido posta lá pra ser jogada fora e foi ficando, como tudo que estava lá foi ficando, inclusive nós. Eu lembro que dava um certo medo sim ir pra lá, acho que mais pelo castigo, por estar isolado do que pelo local. Talvez ele, o local, contribuísse em algo, mas ignorava essa idéia na época. Engraçado, posso concluir que já tive medo de um corredor pouco claro, de ficar nele, numa poltrona no fim dele. Hoje já é mais difícil. Mas também, do que ter medo hoje? O que temer? Como se não bastasse a agonia por me impor uma pergunta sobre mim mesmo (elas sempre me amedrontam), vem uma agonia maior ainda: a resposta conclusiva. Temo ao homem, a mim mesmo, ao passo que é nele a minha maior crença e confiança. Confuso? Ambíguo? Contraditório? Incoerente? Nem tanto já que estamos falando do ser humano e ele é isso tudo ao mesmo tempo. Só temos nós mesmos a temer. Felizes as crianças que temem o que está na cabeça, na fantasia... Felizes! Tristes os homens que temem o que está em si, o que existe. Precisamos... Acho melhor não colocar tudo isso em 3ª pessoa... Talvez seja forte alguém chegar a essas mesmas conclusões através das escrituras de terceiros e de confusão eu já tô cheio... Preciso me guardar de mim mesmo, sou meu próprio mau, enganado pela minha razão, traído pela minha bondade, condenado pelos meus olhos e ouvidos, delatado pelos meus sonhos...

2 comentários:

Fabiana Melo disse...

A verdade é que as maiores batalhas nós enfrentamos dentro de nós mesmo, e não fora. Acho que o melhor é encarar as conclusões e com isso nos conhecermos a nós mesmos (por pior que seja a figura com quem nos deparemos), do que viver girando em torno delas e acabar não sabendo pra onde ir. Poxa Jowel... profundo esse texto. Valeu sempre.

Jessyca disse...

Lindo, Lindo Joel...
Parece que leu meus pensamentos.