Hoje estive no Centro de Educação, Arte e Cultura (CEARC) de Guaiuba. A cidade fica na região nordeste do Ceará, a pouco mais de 26 Km de Fortaleza, emancipou-se do município de Pacatuba em 1986 através de um plebiscito durante o governo de Gonzaga Motta e possui pouco mais de 22 mil habitantes. O CEARC, principal equipamento cultural da cidade, compreende um complexo arquitetônico composto pelo teatro Tom Cavalcante, biblioteca (com acervo de mais de 10.000 livros), sala para reuniões, galeria Aldemir Martins, livraria da UFC, loja de artesanato, oficinas de dança e artes plásticas. O centro possui atividades de formação que incluem diretamente mais de 1.600 jovens atendidos por aulas e cursos além dos espectadores das atividades culturais promovidas pelo equipamento.
Minha ida ao referido centro tratava-se da operação técnica de luz do espetáculo "Curtas nº1" do Grupo 3x4 de Teatro que, além da participação dos atores do grupo conta com a presença de Felipe Araújo. O grupo formado por Gyl Giffony, Mikaelly Damasceno, Rafael Barbosa e dirigido por Silvero Pereira foi formado através do encontro dos artistas dentro do Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas do CEFET/CE, hoje IFCE. O grupo tem uma trajetória de cerca de três anos e vem trilhando um caminho muito interessante de pesquisa e produção teatral através da interação de outras linguagens artísticas com o teatro.
A partir dos dois parágrafos escritos acima podemos pressupor duas coisas: a primeira, que o grupo tem uma preocupação com um projeto de formação em que o teatro seja a premissa básica já que é oriundo de um projeto com essas características. A segunda, que o CEARC também tem a mesma preocupação já que é a principal fonte de entretenimento cultural de uma cidade.
Hoje não ouvimos outra coisa das entidades públicas culturais a não ser o termo "formação de plateia". Mas que plateia é essa? O que se quer dela? O que se quer com ela? Pra que? Que qualidade? Qual a quantidade? Essa última pergunta é a mais interessante para essas entidades. Os números! Quantas pessoas passaram pelo centro cultural, quantas assistiram ao filme, ao espetáculo, quantas entraram na biblioteca... Nunca se pergunta de que maneira essas pessoas assistiram ao espetáculo, o que ela aprendeu na biblioteca. Muito menos se pergunta se o centro cultural oferece meios, formação e informação para que essas pessoas possam ir para lá e realmente irem a um equipamento de cultura e educação e usufruírem disso.
Hoje tivemos uma cena triste e lamentável, mas também geradora de muitas reflexões para nós artistas e para nós plateia que estamos sendo formados por esses centros. O espetáculo, com censura para maiores de 14 anos, começou às 19h30 e foi interrompido ao meio pelo ator e diretor Silvero Pereira. Gritos, algazarra, piadas, gargalhadas, interferências, pré-adolescentes com os pés estirados sobre o palco, crianças assistindo a um espetáculo com censura prévia estabelecida. Tudo isso culpa de quem? Talvez todos que estivessem ali fossem só mais uma vítima de um ciclo que joga pra eles um único tipo de diversão. Mesmo com todo aquele comportamento, talvez sejam só mais uma vítima.
Se em uma cidade com um equipamento desse porte onde se pressupõe haver alguma obra social construída acontece isso, imaginemos o que deve acontecer em cidades que não possuem nada. Não imagino que haja um comportamento mais bárbaro ainda. Não. Não há nem a ideia do que se fazer porque não se sabe o que acontece quando se assiste a algo. Não há a perspectiva do mal comportamento porque não há a possibilidade de ter a oportunidade para isso. Não há informação, que dirá formação. Não podemos culpar nem os artistas nem a plateia por ser do interior, como sugeriu um dos coordenadores da instituição. A culpa é de todos. Principalmente os que aceitam e calam-se.
Ao mesmo tempo que vejo com tristeza o fato acontecido, ele é extremamente necessário. Talvez os integrantes do grupo 3x4 hoje tenham conseguido cumprir sua função de artistas muito mais do que se o espetáculo tivesse sido levado a frente a todo custo. Para a plateia, essa que está sendo formada e que, pelo que vimos, nunca recebeu a mínima informação e formação sobre os mais simples códigos de civilização para cada ambiente, foi muito melhor ter tomado um susto de um grupo que se recusa a continuar o espetáculo por conta do seu comportamento. Com certeza os questionamentos ficaram. É só assim que se faz formação, fazendo pensar.
Ainda há muito o que fazer. Comecemos agora. Um a um. Cada um ajudando como pode, fazendo a sua parte.
As informações sobre a cidade de Guaiuba e o CEARC foram retiradas do site da Prefeitura de Guaiuba: http://www.aprece.org.br/site/?prefeitura=1
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