Um pequeno e apaixonado depoimento. Nada mais que isso.
O teatro tem sido o ser mais generoso de todos os tempos. Tem me salvado em muitos momentos. E isso não é exagero, pois tudo está perdido. Eu sei que a arte é a mãe que possibilita tudo isso, mas minha devoção ao teatro, pelo ser potencializador que ele é, minha inevitável aproximação com ele, minha necessidade básica de tê-lo na minha vida (em todas as instâncias, gradações, momentos e situações) é que me fazem creditar-lhe tudo. Vê-lo funcionando é esplendoroso. Vê-lo possível em sua vida é magnífico. Mesmo (e, principalmente) nas pequenas e mais despercebidas coisas como, por exemplo, o som do guarda-chuva que acabou de ser usado pelo manipulador sendo fechado atrás da bancada de um teatro de bonecos. Essas pequenas engrenagens me ajudam a entender as maiores, as da vida, das pessoas, do amor, por que não?
Há fatos maiores também. O último deles? "Essa febre que não passa" do Coletivo Angu de Teatro com direção de André Brasileiro e Marcondes Lima. No elenco, uma das atrizes mais incríveis que já vi em cena: Ceronha Pontes. Consegui, com uma insistência consciente, estabelecer um laço de amizade com Ceronha ainda no Ceará. Sempre faço isso. Faço questão de ser amigo dos meus ídolos. Muitas coisas se misturam aqui. Precisava ver o espetáculo pelo que já tinha ouvido falar dele, pelo já conhecido trabalho do grupo, pela temática, pela participação de Ceronha. Confesso que a participação de Ceronha no elenco foi o fator que mais me animou a ir assistir porque isso é sempre um evento imperdível aos olhos dos admiradores do bom teatro. Neste caso seria ainda mais. Morando um pouco longe, tudo que me traz o Ceará de volta, um pouco dele, uma lembrança, me é muito caro. Ceronha seria mais uma possibilidade. E foi. Linda! As mulheres trazidas por ela não me saem. Até hoje retorno à Casa da Ribeira, à poltrona em que estava sentado, e revivo algumas falas, alguns momentos. Ceronha faz na peça o que mais sabe fazer: ser mulher, ser gente.
A obra em si é muito bonita, bem feita, responsável. A direção, se não me engano a primeira de André, é inteligente, perspicaz e generosa. André consegue deixar a impetuosidade do texto chegar com muita força e candura ao mesmo tempo. Ele transporta as principais características do universo feminino para a encenação de forma bela e genial. O elenco é luminoso. Cada atriz traz de si o melhor que tem pra dar às mulheres de Luce. Força, singeleza, peso, densidade, graciosidade, beleza. Tudo é vermelho, laranja, quente, sangue, menstruação.
A febre não passa. Não passou. Não vai passar. O teatro, as mulheres, essas mulheres no teatro não deixam. Colam. Queimam. Ardem.
"abrir as portas revirou-me universo feminino encantador e misterioso de maneira cadenciada turbilhão voltei às origens velha conhecida absoluto controle representação pura: ilusão que eu persigo os escuros de mim mesma o que é uma mulher? dividir nossas histórias pessoais chegam mais flores presença em mim sem amarras veio a paixão e me tomou fogo que me atravessa queimam suas mágoas guardo em mim reverberam aos quatro ventos perdas e frustrações"
Trechos de textos do programa do espetáculo
"Essas mulheres do mundo... O passado, o presente, as meninas e os contos de Luce, que me têm transformado todo dia. E que me lançam ao futuro, incerto e misterioso, mas sempre desafiador, com os pés explorando o reino (ou a terra) da delicadeza e da sutileza."
André Brasileiro
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