terça-feira, 2 de agosto de 2011

Admirável mesmo mundo ou pequenos silenciosos

Nesses últimos dias uma enxurrada de comentários por parte da classe artística de Natal e de alguns jornalistas encheu caixas de e-mails e tópicos de redes sociais. Os comentários eram acerca da passagem do Ministério de Louvor Diante do Trono (MG), uma banda gospel que esteve aqui dia 16 de julho para a gravação do seu 14º DVD.

Até aí nada demais. Só até aí. Só até a borboleta ir lá e dar sua parcela de pólen. Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal investiu, através da máquina administrativa, a quantia de R$ 250.000,00 (Duzentos e cinquenta mil reais). Isso mesmo. Mais R$ 40.000,00 (Quarenta mil reais) foram entregues pelo governo do estado.

Notem: prefeitura municipal e governo do estado. Instituições laicas (?). Com essa quantia não se calcula o número de benefícios humanos trazidos para uma cidade. Não falo de coisas concretas pra não desmerecer nem diminuir a discussão. Estamos falando de movimentação artística, cultural e de eventos para a população? Pois fiquemos nela. Quantos artistas da terra poderiam "usufruir" desse valor em um festival, mostra, encontro, qualquer coisa. Inúmeros. Mostrando arte e cultura local, por locais e para locais. Assim, a prefeitura agiria em duas frentes sobre a população: beneficiando-a com um evento cultural e gerando cultura e trabalho aos trabalhadores da classe.

O estado não deve ter nenhuma obrigação com nenhuma entidade religiosa. Não deve bancar nenhuma delas. O estado é laico: separado de igrejas e comunidades religiosas e neutro em relação a elas. É claro que, ao mesmo tempo, não podemos excluir parte da população, a evangélica no caso. Estrutura básica e condições para qualquer manifestação democrática e popular devem ser obrigação do poder público, mas sua responsabilidade sobre ela não. Esse foi o erro. Isso foi o que aconteceu aqui.

Mas por que tudo isso? Porque e como essas coisas chegam a nós? Quando elas chegaram? Como e quando começaram? Como essas coisas se revelam, desenvolvem e incrustam na sociedade? Muitas vezes, nós mesmos, e a maioria das pessoas quase sempre, passa despercebido por cima de coisas como essas. O estado brasileiro foi, por muitos anos, um departamento da igreja católica. É absurdamente comum encontrarmos crucifixos e imagens de santos em repartições públicas. É espantosa e monstruosamente execrada toda e qualquer atitude contrária a isso como aconteceu no início do mandato da Presidenta Dilma. O que seria pra ser óbvio é o maior dos pecados!

As coisas em relação a isso estão tão imbricadas e estamos tão acostumados que não conseguimos separá-las mesmo sabendo que a separação, o laicismo, é o óbvio, o comum. Já era. O poder religioso consumiu tudo. Virou cultura. Hábito.

É podre como essas miudezas se instalaram entre nós. Outras inúmeras coisas estão inseridas dessa forma em nossa sociedade. Quais? Os pequenos, silenciosos e, por isso mesmo, mais venenosos preconceitos. Não somos preconceituosos, respeitamos tudo, aceitamos tudo! Até o momento em que uma pequena fagulha queima tudo dentro de nós e a gente deixa escorrer sem perceber. Por quê? Porque sempre esteve ali. É da nossa natureza menosprezar um nordestino, um homossexual, um negro, um pobre, um diferente da maioria. É da nossa natureza.

Um cidadão paulistano xingar o outro de “Nordestino!” durante uma fechada no trânsito, um amigo xingar o outro de “Viado!” durante uma discussão... É por aí. É palavrão! É xingamento! É feio! Cruzar o braço do namorado quando um negro vem andando em sua direção em uma rua escura também. Ah, deputada! Não querer contratar uma babá por ela ser lésbica e achar que, por isso, ela é pedófila, nem se fala. Mal sabe você que esse seu pensamento foi construído, que essa relação homossexualidade x pedofilia se formou dentro da sua cabeça porque, desde pequena, você ouve que um padre aqui ou acolá abusou de um menor de idade. Isso mesmo. Um padre. Um desses da sua igreja.

Caráter é outra coisa. Não é a identidade sexual, a cor, a crença, a condição social ou outros fatores que vão dizer isso. Somos nós mesmos que dizemos. É ele que se diz, se mostra.

Esses venenosos e silenciosos preconceitos? Estamos repletos dele. Nos acostumamos com tudo. Se conseguimos nos acostumar com coisas que matam e ferem o ser humano vítima de preconceito, a bagatela de R$ 290.000,00 (Duzentos e noventa mil reais) para um show evangélico não é nada! É apenas mais um.

Um comentário:

Só palavras... disse...

É muita vergonha alheia, né? Comparo essas coisas com o sol do meio dia, que de tão claro chega a cegar!