quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Adiamento

Quando dei por mim estava só. A panela havia sido largada sobre a mesa com pouca quantidade de óleo dentro. Ainda girava ao redor do seu próprio eixo. Havia sido largada naquele exato momento. O saco milho e o vasilhame de sal estavam do lado da panela. Ainda possuíam um pouco do calor das mãos de quem os abandonara ali. Fugiu. A TV ainda chuviscava. Não colocara o filme pra tocar. Desistiu. Pra onde terá ido? O que terá acontecido? O que deve ser mais importante do que o mais simples e trivial momento que passaríamos juntos dali a alguns instantes? Não sei. Vai entender.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por gentileza, Fortaleza (Izabel Gurgel)

Texto sobre a convivência necessária em uma cidade por ocasião do Projeto de Lei dos Paredões de Som em Automóveis proposto pelo vereador Guilherme Sampaio (PT).

Por gentileza, Fortaleza.

Audiência Pública – Lei do Paredão
Sobre paredão de som em automóvel.
Proposição do vereador Guilherme Sampaio.

Sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010, 9h.
Câmara Municipal de Fortaleza.

Eu vou!

Gentileza gera gentileza
Na praia, quero ouvir o barulho do mar. No teatro, só o espetáculo. No cinema, o filme. Na sala de aula, a aula. Em casa, sons que não incomodem a vizinhança. Na praça, o buchicho das conversas. Nas igrejas, rezar baixinho: os deuses não são surdos. Deixar profissionais e pacientes atravessarem uma dura noite em hospital sem som de carro. No Passeio Público e no jardim do TJA, quero ouvir passarinhos. Vivo em Fortaleza. Quero viver em outra cidade: Fortaleza sem as parafernálias de som em automóvel.

Quero mais: calçadas livres, ruas limpas, iluminadas, transporte público decente. Um dia tocado por “Bom dia” ao desconhecido que passa, movido a “Por gentileza”, “Com licença”, “Por favor” e “Muito agradecida”. Ainda que não saibamos, estamos exauridos pela grosseria cotidiana que não cessa de prosperar em Fortaleza.

Do ônibus ou da hilux, por gentileza, não jogue lixo na rua. Não encontrar lixeira não é desculpa: leve um saquinho na bolsa. Respeite o ciclista: para 7% da população, a bicicleta é o único meio de transporte.

Lembre-se: a vaga para deficiente é para portadores de deficiência...

A fila é para todos, todos temos pressa – ainda que não saibamos como inventamos uma vida assim. E não precisamos de lei para dar passagem aos velhos, às pessoas com crianças, com dificuldade de locomoção, às mulheres grávidas: é só se colocar no lugar do outro. Miúda, eu já sabia que ceder o lugar aos mais velhos, por exemplo, era uma regra que valia o tempo todo no ônibus, na fila...

Por gentileza, não buzine: se estou parada é porque engarrafamos a vida. É cada vez mais difícil o ir-e-vir mais banal. Vai para a balada, ao Centro ou ao estádio? Divida um táxi ou uma van com os amigos. Deixe o carro em casa. Nenhuma grande cidade do mundo, com uma rua que sabe viver, está baseada no automóvel particular. Precisamos mais de transporte público e sistema de ciclovias do que de estacionamento.

Se usa moto, use também capacete e, assim, em caso de acidente, não vai ocupar a equipe do IJF, que já tem um serviço imenso para ser feito. Faixa de pedestre tem função: é para dar passagem a quem anda a pé, qualificando o trânsito. Sim, somos milhares de pedestres na cidade. Sobretudo, ao deitar e ao acordar, lembre-se: não existe só você no mundo.

Não grite; não chame o garçom ou a vendedora com um “Ei!”; saiba que muitas vezes seu celular pode ficar desligado e o mundo continuará girando.

Quero viver em Fortaleza assim: nos 365 dias do ano, com a civilidade dos dias extraordinários. Ainda ressoa o relato da amiga moradora da Santos Dumont que desceu a João Cordeiro a pé para o réveillon na praia, à vontade na rua, sem pânico em relação ao outro: sim, porque o medo incorporado é acionado a cada encontro com quem quer que seja. Paranóia urbana que (talvez) temos um certo prazer de cultivar, assim uma espécie de distinção social. Claro que construímos cidades assustadoras. Mas com mais de 350 mil pessoas passando pelo Centro diariamente, por exemplo, não dá para acreditar que se realiza 100% a equação: ir ao Centro + andar a pé = assalto.

É um alento saber do casal amigo que voltou do réveillon fazendo o caminho contrário, subiu a Antônio Augusto, pegou um ônibus na mesma Santos Dumont às duas da manhã e foi para casa, prática comum para quem mora em uma cidade que sabe viver.

Quero sim a civilidade da Domingos Olímpio no carnaval. Senhoras levando cadeiras de casa para ver o desfile, crianças brincando, muitos mundos partilhando um mesmo espaço. Como no pré-carnaval no Jardim das Oliveiras, reunindo o time de futebol e o bloco do bairro com a Escola de Samba Império Ideal: não lhe conheço, não sei quem você é, talvez não nos encontremos nunca mais, mas vivemos juntos e precisamos, você e eu, cuidar de nós mesmos e cuidar da cidade. Sem precisar dizer de quem sou filha, com quem você está falando ou a função que ocupo, sempre provisoriamente. Aliás, outro dado elementar na vida nosso de todo dia: é tudo provisório. Então, deixa passar.

O que muda na cidade em tempo de réveillon, pré-carnaval ou carnaval, que nos faz usar, ainda timidamente, talvez, a máscara do convívio gentil? Sim, a gentileza é um artifício, algo que se aprende, algo que se constrói. Se somos fabricadores e usuários de tantas máscaras, vamos fazer prosperar em Fortaleza a gentileza. Falo por interesse próprio: quero viver bem na cidade.

Cuidar da vida (na cidade/da cidade) é uma tarefa cotidiana, coletiva e sempre renovada. Agora está na nossa mão, por exemplo, desligar a violência do som automotivo. O paredão de som é pago. O silêncio é gratuito. Tem gente fazendo negócio com o nosso silêncio. E criando um lastro de brutalidade, uma espécie de ‘naturalização’ da estupidez de alguns diante do assombro e do incômodo de tantos. Nunca quis isso. Agora, por gentileza, não fico calada.

E pra não dizer que não falei das flores, não arranque flores dos jardins. Melhor do que nós, humanos, elas lidam bem com a morte e sabem a hora de murchar, cair, fenescer. A gente passa, olha, sente o cheiro e segue. Outros passam, olham, sentem o cheiro e seguem...

Se você é fumante como eu, não jogue a cinza nos canteiros. As árvores não fumam. Se por acaso a gente se encontrar e eu estiver pisando na bola (falando alto, tentando escapar da fila, comendo ou bebendo em uma sala de espetáculo etc.), fale comigo mansamente e com firmeza. É como na música: o seu olhar melhora o meu.

Viver com o outro é nosso aprendizado diário. Eu quero aprender!
Desligue o paredão de som, por delicadeza. Fortaleza agradece.

Izabel Gurgel
Diretora do Theatro José de Alencar

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Manchas roxas

Velas pela casa.
Visão turva
e as minhas manchas
roxas viram rosas.

Exílo-me na esperança de
que elas queimem
logo.

Não queimam.

Não desaparecem.

São de metal-púrpuro-vegetal.
Outros marcaram-nas
em mim como que em gado.

Esses sim, desapareceram.
Com o vento, não com o fogo.
Elas não. Vão ficar.

Eternamente?

Meus cadernos

Sempre uso cadernos. Blocos de anotações. Sempre acabam, obviamente, e começo outros novamente. Todos que acabam restam sempre duas ou três folhas. Coincidentemente, o que preciso escrever quando o caderno está próximo do fim parece querer ultrapassar as folhas restantes e isso me faz abandonar os cadernos antigos sempre com essas duas ou três folhas sobrando. Isso é tão ruim. Sempre penso que algo ficou inacabado ou que palavras, esses seres que deviam habitar tudo no mundo, podiam habitar aquele espaço agora inútil.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Beijo-comum

Os blocos cinza retangulares eram compridos. De vez em quando eram atravessados por um quadrado preto de textura áspera. Eram quase sempre uniformes, os cinza. De vez em quando algumas partes possuíam listras, pequenos detalhes ou restos de chiclete grudados. O preto do meu sapato pisava neles e saltava-me aos olhos, destacavam-se. Mas quando eu atravessava as ruas, os quadrados pretos que atravessavam os retângulos cinza que formavam as calçadas em que eu andava, o preto do asfalto era agora parte do meu sapato, os dois eram pretos, tornavam-se invisíveis. Assim eu ia caminhando, olhando pra baixo. Não estava triste, não, não poderia estar porque estava muito feliz. Era só mania mesmo de andar de cabeça baixa. Outra mania também era ter mantida a atenção por qualquer motivo bobo que passasse de frente dos meus olhos. Fico olhando, observando, assim, como fiquei nessa ocasião de olhar meus sapatos pretos em contraste com o cinza da calçada e em consonância com o preto do asfalto. Pouco tempo depois eles já não faziam tanto contraste com a calçada porque começou a cair uma ligeira chuva, suficiente para deixar a calçada molhada e agora não tão mais cinza, mas não tão suficiente para me fazer parar de andar e me abrigar em alguma marquise, toldo ou coisa parecida. Continuei caminhando na chuva, era rala, não encharcava, só dava a sensação de tranquilidade como a que dá quando você almoça e deita em uma rede depois. Entre os cinzas que compõem quase todas as ruas da minha cidade encontro um pouco de verde, amarelo, rosa e vermelho. Pequenos pontos. Passo direto e só depois de alguns segundos as pequenas quantidades de cores me chamam atenção. Volto, entro na floricultura e resolvo comprar algum ramalhete, afinal, tínhamos motivos pra comemorar. Arrumei emprego novamente e dessa vez dá pra sustentar nós dois pra que ele continue escrevendo, se dedicando à literatura como sempre sonhou. Compro as de sempre: beijo-comum. Não sei o nome verdadeiro dessa flor e acho que seria até menos bonito se soubesse. Gosto das coisas comuns, aquelas que estão sempre lá, que não fazem alarde e que se elas se vão, não somos mais a mesma pessoa. A chuva aumenta e me apresso. Chego em casa, ele escreve, deixo as flores sobre a mesa, tiro o casaco, ponho as flores no vaso, café em uma xícara, deixo perto dele, ele olha pra mim, me abraça e me dá um beijo, um desses comuns, do dia-a-dia, sem fogos de artifício, reais, simples, mas extremamente necessários e essenciais.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Não deixa de ser natal

Município brasileiro.

Capital do estado do Rio Grande do Norte.

Nasceu as margens do rio Potengi e do Forte dos Reis Magos.

Situa-se no extremo-nordeste do Brasil.

Região também chamada "esquina do continente".

Está distante a 2.507 quilômetros de Brasília.

É conhecida como a "Cidade do Sol" ou "Noiva do Sol".

Também a chamam de "Capital Espacial do Brasil".

Capital menos violenta do Brasil.

Décima - quarta cidade mais segura do Brasil.

Terceira cidade com melhor qualidade de vida do Norte-Nordeste.

Vigésima - primeira cidade mais populosa do país.

Atualmente a cidade cresce num ritmo alucinante.

Atrai aproximadamente 2 milhões de turistas ao ano.

Dotada de muitas praias e belezas naturais.

Sedia a maior micareta do país, o Carnatal.

A oitava cidade mais visitada por turistas do Brasil.

Cidade mais visitada por portugueses.

Eleita o melhor destino turístico do Brasil em 2007.

Possui o maior número de leitos turísticos do Brasil.

Teve grande importância durante a Segunda Guerra Mundial.

É o trigésimo - sexto maior PIB municipal da nação.

A quarta melhor cidade do Nordeste para se trabalhar.

Capital do Nordeste em que se paga melhor a um trabalhador em um emprego formal.

Possui o quinto maior poder de compra por parte da população no Brasil.

É terra do folclorista Luís da Câmara Cascudo.

Do poeta Ferreira Itajubá.

Possui monumentos históricos como o Teatro Alberto Maranhão.

A Coluna Capitolina Del Pretti.

Além de outras atrações como a Ponte Newton Navarro.

O maior cajueiro do mundo.

O Parque da Cidade.

Praias como Ponta Negra, Genipabu e Pipa.

É a capital brasileira mais próxima do continente europeu.

É... tô indo pra lá tentar as coisas, batalhar... essas coisas que fazem todas as pessoas que querem sair do lugar. Como eu lá tem aos montes, em todo lugar. O carnaval passa, você tem a sensação de que o ano realmente começa e pensa sobre como vai ser. No meu caso isso é mais do que inevitável, é necessário. Mudanças grandes, boas e importantes vem por aí. Hoje conversando com minha mãe soltei: “De domingo agora a oito dias”. É... de domingo agora a oito dias. Já, já. Uma certa angústia. Sou eu e eu agora. Mas também a certeza de que tudo é crescimento. E essa parte é extremamente necessária. Por mais que você tenha todas as certezas e desejos, ninguém sabe o que vem pela frente. É outra cidade, outra situação, outro clima, outras pessoas e isso tudo pode significar uma outra vida, nova, claro. E isso é que é o atraente! O nome da cidade já diz tudo, né? Haverá algum nascimento. Tô indo! Tô chegando! Vamo vê no que dá!

Caminhos abertos!

Tudo vai dar certo!

Fé, força, paz e luz!

Todo mundo do meu lado, ao meu redor, os de carne e osso e os de brisa, todos!

Tô indo assim! Só pode dar certo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Se eu nascesse de novo

Se eu pudesse nascer de novo eu faria assim: queria nascer em Fortaleza! É! Gosto demais dessa cidade, mesmo com todos os problemas que ela tem e com todos os maltratos que ela sofre. Mas eu queria nascer lá. Fortaleza de Iracema, do Mucuripe, do Benfica e do Parque Araxá. Queria ir direto pra lá, pro Parque Araxá, já da maternidade. Quando isso? Década de 1980, claro. No começo. Deixa eu ver... Podia ser 1983. É. É um ano legal, de mudanças. Desvalorização do Cruzeiro, o que geraria uma reforma na economia posteriormente, primeiros governadores eleitos diretamente após o golpe de 1964 assumindo, sem contar a estreia da Xuxa na Manchete! kkkkkkkkkkkkk São mudanças profundas e radicais na vida de uma pessoa! Queria que fosse lá pelas bandas do começo do ano. É, pra ter pelo menos a sensação de que eu participei de tudo, já que eu já existia. Fevereiro, eu acho! É um bom mês. Na época do carnaval seria maravilhoso, perfeito! O povo dançando, cantando, fazendo barulho, vestido em cores e amores, passando em bloco na rua e minha mãe ouvindo tudo da janela da maternidade. Ah... Carnaval. Queria nascer na época do carnaval, fazer parte dele pra que hoje me sentisse dele também. Ah, a infância? Normal... Divertida, protegida, amparada. Queria estudar no Colégio Deoclécio Ferro, depois na Escolinha Tia Marta, no Educandário Pastor João Vicente de Queiroz, voltar pro Deoclécio, ir pro Manuelito Azevedo e voltar pro Deoclécio mais uma vez. Queria que fosse assim. Queria brincar muito na rua. Bandeira, esconde-esconde, tudo! Organizar festas no bairro, dirigir as peças de teatro das festas... A adolescência cheia de fantasia, de invenção. Organizar festas no colégio. Mais tarde, no fim da adolescência, queria fazer amigos pra vida toda, fazer curso de inglês, por mais que ele não servisse pra nada, começar a aguçar minha criatividade e curiosidade sem saber que isso seria minha motivação profissional, me interessar por comunicação, publicidade, propaganda, tentar inúmeras vezes vestibular pra isso e não passar até que eu descobrisse o teatro mais tarde. Depois eu ia querer entender isso melhor, estudar isso, ver que eu não conseguiria mais fazer outra coisa e ver que a vida tem tudo pela frente ainda. Depois tentar um mestrado em Artes Cênicas, ir pra Natal e esperar no que vai dar. Se eu nascesse de novo queria que fosse assim.