segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Uma farsa bolero
sábado, 6 de agosto de 2011
Aniversário de Clara Nunes

Choro na voz e na alma.
É. Definitivamente tem dias que só o choro da voz da Dalva resolve. E o pior é que nesses dias, na maioria deles, não há nenhuma melancolia, sofrimento por/de amor, nada. É só a necessidade de algo genuíno. algo tão natural que chega e toca você com tanta profundidade que faz você ser um pouco mais você, mais autêntico, mais genuíno também. É como se a natureza dela resgatasse a sua. Só quem chora com ela é que entende. E não é choro de lágrimas. É de alma. Como o dela. Choremos:
"Hoje eu quero a rosa mais linda que houver. Quero a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem."
"Errei sim, manchei o teu nome, mas, foste tu mesmo o culpado."
"Se o azul do céu escurecer e a alegria na terra fenecer, não importa, querido, viverei do nosso amor. Se tu és o sonho dos dias meus, se os meus beijos sempre forem teus não importa, querido, o amargor das dores desta vida."
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Admirável mesmo mundo ou pequenos silenciosos
Nesses últimos dias uma enxurrada de comentários por parte da classe artística de Natal e de alguns jornalistas encheu caixas de e-mails e tópicos de redes sociais. Os comentários eram acerca da passagem do Ministério de Louvor Diante do Trono (MG), uma banda gospel que esteve aqui dia 16 de julho para a gravação do seu 14º DVD.
Até aí nada demais. Só até aí. Só até a borboleta ir lá e dar sua parcela de pólen. Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal investiu, através da máquina administrativa, a quantia de R$ 250.000,00 (Duzentos e cinquenta mil reais). Isso mesmo. Mais R$ 40.000,00 (Quarenta mil reais) foram entregues pelo governo do estado.
Notem: prefeitura municipal e governo do estado. Instituições laicas (?). Com essa quantia não se calcula o número de benefícios humanos trazidos para uma cidade. Não falo de coisas concretas pra não desmerecer nem diminuir a discussão. Estamos falando de movimentação artística, cultural e de eventos para a população? Pois fiquemos nela. Quantos artistas da terra poderiam "usufruir" desse valor em um festival, mostra, encontro, qualquer coisa. Inúmeros. Mostrando arte e cultura local, por locais e para locais. Assim, a prefeitura agiria em duas frentes sobre a população: beneficiando-a com um evento cultural e gerando cultura e trabalho aos trabalhadores da classe.
O estado não deve ter nenhuma obrigação com nenhuma entidade religiosa. Não deve bancar nenhuma delas. O estado é laico: separado de igrejas e comunidades religiosas e neutro em relação a elas. É claro que, ao mesmo tempo, não podemos excluir parte da população, a evangélica no caso. Estrutura básica e condições para qualquer manifestação democrática e popular devem ser obrigação do poder público, mas sua responsabilidade sobre ela não. Esse foi o erro. Isso foi o que aconteceu aqui.
Mas por que tudo isso? Porque e como essas coisas chegam a nós? Quando elas chegaram? Como e quando começaram? Como essas coisas se revelam, desenvolvem e incrustam na sociedade? Muitas vezes, nós mesmos, e a maioria das pessoas quase sempre, passa despercebido por cima de coisas como essas. O estado brasileiro foi, por muitos anos, um departamento da igreja católica. É absurdamente comum encontrarmos crucifixos e imagens de santos em repartições públicas. É espantosa e monstruosamente execrada toda e qualquer atitude contrária a isso como aconteceu no início do mandato da Presidenta Dilma. O que seria pra ser óbvio é o maior dos pecados!
As coisas em relação a isso estão tão imbricadas e estamos tão acostumados que não conseguimos separá-las mesmo sabendo que a separação, o laicismo, é o óbvio, o comum. Já era. O poder religioso consumiu tudo. Virou cultura. Hábito.
É podre como essas miudezas se instalaram entre nós. Outras inúmeras coisas estão inseridas dessa forma em nossa sociedade. Quais? Os pequenos, silenciosos e, por isso mesmo, mais venenosos preconceitos. Não somos preconceituosos, respeitamos tudo, aceitamos tudo! Até o momento em que uma pequena fagulha queima tudo dentro de nós e a gente deixa escorrer sem perceber. Por quê? Porque sempre esteve ali. É da nossa natureza menosprezar um nordestino, um homossexual, um negro, um pobre, um diferente da maioria. É da nossa natureza.
Um cidadão paulistano xingar o outro de “Nordestino!” durante uma fechada no trânsito, um amigo xingar o outro de “Viado!” durante uma discussão... É por aí. É palavrão! É xingamento! É feio! Cruzar o braço do namorado quando um negro vem andando em sua direção em uma rua escura também. Ah, deputada! Não querer contratar uma babá por ela ser lésbica e achar que, por isso, ela é pedófila, nem se fala. Mal sabe você que esse seu pensamento foi construído, que essa relação homossexualidade x pedofilia se formou dentro da sua cabeça porque, desde pequena, você ouve que um padre aqui ou acolá abusou de um menor de idade. Isso mesmo. Um padre. Um desses da sua igreja.
Caráter é outra coisa. Não é a identidade sexual, a cor, a crença, a condição social ou outros fatores que vão dizer isso. Somos nós mesmos que dizemos. É ele que se diz, se mostra.
Esses venenosos e silenciosos preconceitos? Estamos repletos dele. Nos acostumamos com tudo. Se conseguimos nos acostumar com coisas que matam e ferem o ser humano vítima de preconceito, a bagatela de R$ 290.000,00 (Duzentos e noventa mil reais) para um show evangélico não é nada! É apenas mais um.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Não passa...
Um pequeno e apaixonado depoimento. Nada mais que isso.
O teatro tem sido o ser mais generoso de todos os tempos. Tem me salvado em muitos momentos. E isso não é exagero, pois tudo está perdido. Eu sei que a arte é a mãe que possibilita tudo isso, mas minha devoção ao teatro, pelo ser potencializador que ele é, minha inevitável aproximação com ele, minha necessidade básica de tê-lo na minha vida (em todas as instâncias, gradações, momentos e situações) é que me fazem creditar-lhe tudo. Vê-lo funcionando é esplendoroso. Vê-lo possível em sua vida é magnífico. Mesmo (e, principalmente) nas pequenas e mais despercebidas coisas como, por exemplo, o som do guarda-chuva que acabou de ser usado pelo manipulador sendo fechado atrás da bancada de um teatro de bonecos. Essas pequenas engrenagens me ajudam a entender as maiores, as da vida, das pessoas, do amor, por que não?
Há fatos maiores também. O último deles? "Essa febre que não passa" do Coletivo Angu de Teatro com direção de André Brasileiro e Marcondes Lima. No elenco, uma das atrizes mais incríveis que já vi em cena: Ceronha Pontes. Consegui, com uma insistência consciente, estabelecer um laço de amizade com Ceronha ainda no Ceará. Sempre faço isso. Faço questão de ser amigo dos meus ídolos. Muitas coisas se misturam aqui. Precisava ver o espetáculo pelo que já tinha ouvido falar dele, pelo já conhecido trabalho do grupo, pela temática, pela participação de Ceronha. Confesso que a participação de Ceronha no elenco foi o fator que mais me animou a ir assistir porque isso é sempre um evento imperdível aos olhos dos admiradores do bom teatro. Neste caso seria ainda mais. Morando um pouco longe, tudo que me traz o Ceará de volta, um pouco dele, uma lembrança, me é muito caro. Ceronha seria mais uma possibilidade. E foi. Linda! As mulheres trazidas por ela não me saem. Até hoje retorno à Casa da Ribeira, à poltrona em que estava sentado, e revivo algumas falas, alguns momentos. Ceronha faz na peça o que mais sabe fazer: ser mulher, ser gente.
A obra em si é muito bonita, bem feita, responsável. A direção, se não me engano a primeira de André, é inteligente, perspicaz e generosa. André consegue deixar a impetuosidade do texto chegar com muita força e candura ao mesmo tempo. Ele transporta as principais características do universo feminino para a encenação de forma bela e genial. O elenco é luminoso. Cada atriz traz de si o melhor que tem pra dar às mulheres de Luce. Força, singeleza, peso, densidade, graciosidade, beleza. Tudo é vermelho, laranja, quente, sangue, menstruação.
A febre não passa. Não passou. Não vai passar. O teatro, as mulheres, essas mulheres no teatro não deixam. Colam. Queimam. Ardem.
"abrir as portas revirou-me universo feminino encantador e misterioso de maneira cadenciada turbilhão voltei às origens velha conhecida absoluto controle representação pura: ilusão que eu persigo os escuros de mim mesma o que é uma mulher? dividir nossas histórias pessoais chegam mais flores presença em mim sem amarras veio a paixão e me tomou fogo que me atravessa queimam suas mágoas guardo em mim reverberam aos quatro ventos perdas e frustrações"
Trechos de textos do programa do espetáculo
"Essas mulheres do mundo... O passado, o presente, as meninas e os contos de Luce, que me têm transformado todo dia. E que me lançam ao futuro, incerto e misterioso, mas sempre desafiador, com os pés explorando o reino (ou a terra) da delicadeza e da sutileza."
André Brasileiro